A Lenda de Arquitaurus - Capítulo 1

27/08/2017

I

A Hora

A vista nos deliciava como em nenhum outro lugar das terras latinas ou bárbaras. Nessas vastidões que pareciam intermináveis aos olhos de qualquer mortal, florestas se erguiam como extensões beatificadas pelos deuses eternos, enquanto as montanhas jaziam como testemunhas dos poderes de eras antigas da Terra. Ali nos extensos vales, os rios deslizavam prateados pelos recantos mais verdes para depois se desnudarem solenes nas aprazíveis campinas até o oceano. Em alguns trechos, os rios corriam imponentes e caudalosos, sendo uma benção para os povos que habitavam próximos as suas margens. Mas nada se destacava tanto quanto a vasta península, que parecia avançar com voracidade em sua sede para o grande e belo mar, e em sua vocação incessante de conquista.

Nessa região do mundo, puríssimos ventos sopravam contra os arvoredos e os arbustos das encostas rochosas, dotando a vegetação de certo movimento e graciosidade. Em sua jornada habitual, os ventos, ao passarem por terras mais baixas, extraíam o perfume das flores silvestres, espalhando os aromas florais por todo o principado conhecido naquele tempo como Arquitaurus. Foi assim que os ares benfazejos chegaram a mais alta janela de uma velha fortificação e a fustigaram até abri-la. Neste caso, como se obra de uma vontade poderosa. Não foi surpresa que dessa ação do vento, o sol, em seu avançar imperturbável, flechasse a abertura da modesta janela, dissolvendo as últimas sombras perpetradas pela noite.

O homem ali acordou de um sonho estranho e agoniado, como se imensas distâncias tivessem sido percorridas por velozes cavalos alados. Desertos, pântanos, florestas, abismos e mares surgiram e sumiram em imagens prodigiosas. Céus e terras se separaram e se aproximaram sem que fossem maiores ou menores suas distâncias. Trombetas soaram do alto das montanhas, abalando os moradores do mundo. Sonhou que coisas misteriosas devoravam a essência primordial do mundo, e mais assustador ainda, do seu próprio mundo. Vislumbrou vidas de pessoas sendo perdidas frente a promessas de homens insensatos e impuros. Guerras sem triunfos perseguidas por aventureiros de nações estranhas e povos sem memória, vazio e esterilidade transformando a face da Terra. Combateu numa praia deserta um inimigo invisível e íntimo a sua carne. Viu seu túmulo aberto, e sem qualquer cerimônia foi-lhe apresentado cenas que assustariam o mais sábio dos homens. Por lá descansava um leão com três cabeças e asas exuberantes saindo de seus flancos. O animal o fitava com a severidade própria do transcorrer tempo. Depois, uma linda mulher aparecia montada num corcel negro de estirpe superior, ataviado com insígnias sublimes. Ela usava na cabeça, prendendo as mechas douradas do seu cabelo, uma tiara do deus sol. Ao desmontar, mostrou-lhe de uma só vez o nascer e o pôr do sol, então as nuvens desceram sobre ele como um manto real e várias cachoeiras surgiram de repente em seu entorno como se para consagrá-lo a um destino incomum. Por último, uma voz ao longe sussurrava respeitosamente: "Pã está morrendo, mas o sol nascerá hoje ao meio dia". Compreendeu, assim que abriu os olhos, que eram realidades só possíveis em sonhos, embora uma sensação insana dominava sua disposição, que o fazia não ter certeza de coisa alguma.

Quando se pôs sentado na cama, ainda respirava de modo ofegante e o coração disparado galopava como um potro selvagem. A primeira reação foi olhar para a palma de sua mão esquerda. Viu que sua misteriosa tatuagem estava com a cor mais viva e extremamente brilhante. Então duvidou, "ou apenas, ela me parece mais viva hoje?"

Entretanto, algo foi despertado em seu íntimo. Talvez a jornada maior e decisiva de sua vida deveria começar. Há muito tempo, vinha acreditando que tudo isso não passasse de uma tolice, mas agora, de repente, uma torrente de sentimentos o assaltava impiedosamente a partir de um sonho louco. Os sonhos, diziam todos os sacerdotes, eram mensagens dos deuses. "O que fazer, ou para onde ir?", questionou para si mesmo enquanto vestia uma túnica negra. A única resposta que lhe veio ao espírito apontava na direção das terras ermas, nos domínios de Gorjala, o terrível, bem distante do coração da Gália. Pois de lá tinha as únicas pistas de sua origem e de seu nascimento. "É preciso partir, apenas partir... tenho que descobrir isso de uma vez."

"Sim, de fato, era o que eu deveria fazer de imediato, sem esperar qualquer sinal ou um mestre em sabedoria e em vidência que, por acaso, depois de se perder pelos arredores dos densos bosques, viesse aparecer nestes domínios," refletia o rapaz, desesperançado com o mundo.

Como ele podia esquecer, estava noivo e comprometido com a filha do senhor de Arquitaurus. O casamento já estava em andamento, faltando apenas a data do cerimonial. E, claro, o senhor daqueles domínios não consentiria, nem de longe, numa desfeita vergonhosa ou desonrosa para a filha. "Como fui me meter nisso?", estava aturdido, gemendo sob o peso do compromisso. Não se lembrando mais que a linda Cercira lhe despertou os mais profundos sentimentos e aveludou o último ano com dedicação e ternura.

"Estava doente ou enfeitiçado, era isso!" Qual deus do Olimpo estava possuindo a sua alma naquele instante? Nada mais poderia explicar a sua situação embaraçosa, e nada, absolutamente nada, era mais temerário na vida de um mortal do que a possessão divina. Olhou pela janela, agora escancarada, e divisou o austero palácio do futuro sogro. Suas colunas dóricas, quase ameaçadoras, inibiram os pensamentos mais ousados, tanto que quase houve uma quietude interior.

Depois de algum tempo, percebeu que o sol avançava sem descanso e ele ainda permanecia encafifado com aquelas idéias estranhas de partir para os reinos sanguinários de Gorjala. Precisava sair, e foi isso que fez.

Saiu à procura de Sabázio, seu bom e velho amigo romano, um antigo centurião que ficara rico com o comércio e era um renomado um farrista até em terras bárbaras, pelo que se contava. Preparou a montaria e partiu sem desperdiçar mais tempo com miudezas da vida doméstica, que incluía aí um desjejum. Seu fiel criado, Enginardo, ainda insistiu em que ingerisse um pão molhado num saboroso vinho novo. Embora o mesmo, de forma ciosa, e conhecendo como o conhecia, intuísse que seu patrão estava num daqueles momentos de destempero que apenas s senhores costumavam ter.

Logo chegou à residência do amigo, um edifício de dois andares como se via em Roma e em algumas colônias do império. Exibia um pátio externo amplo e decorado com caminhos pavimentados entre jardins exuberantes. Destacava-se, nesse edifício, sua belíssima fachada, onde havia murais com pinturas de touros em cenas pouco comuns. Também se via, na entrada principal, uma arcada na qual o mesmo animal aparecia esculpido de forma magistral. A casa Tauri, como era conhecida pelos habitantes do principado, sempre fora motivo de muitos falatórios que se misturavam a relatos históricos e a lendas originadas em outras terras. Antiga casa dos governantes que Roma designava. Para alguns, estava imantada com um encanto poderoso. Não eram poucos os relatos de cura atribuída a uma fonte no centro do pátio. No entanto, nos dias correntes de nossa narrativa, sua especialidade, se assim pudermos ser fiéis aos falatórios, eram os escândalos. Estes, apreciados tanto pelo mais pobre camponês, escravo ou artesão, como pelas nobres damas em seus salões requintados. De tal sorte, que quando o oposto chegava aos ouvidos das pessoas, elas não faziam questão de esconderem certa frustração.

A casa estava fechada e tudo em volta muito quieto, isto numa hora em que o sol já avançara mais do que o suficiente para um dia de trabalho. Apenas três criados cuidavam e circulavam pela propriedade, mantendo por aquela hora alguma atividade junto aos animais domésticos. Perceberam a pressa do visitante no trote do cavalo em que vinha e no passo cumprido que manteve após ter desmontado. O reconheceram desde antes como o mais estimado amigo do patrão. Fizeram uma deferência e informaram que o senhor dormia e não queria ser perturbado, mas nem de longe tentaram demovê-lo de sua intenção, a partir dali, fosse ela qual fosse. Nos assuntos dos senhores era sempre melhor não se intrometer.

O visitante nada disse, e sem dar satisfação à criadagem, apenas seguiu para um dos lados da casa.

- Sabázio! - gritou com toda voz que possuía para uma janela superior, contígua a porta que se abria numa sacada.

Repetiu com mais vigor. E mais uma vez o chamou, até que o amigo apareceu com a disposição dos indivíduos que são arrancados precocemente do sono. Trajava um longo manto branco com desenhos, lembrando os ramalhetes e cachos de uvas; já na cabeça, trazia uma espécie de gorro escuro.

- Suba! - disse ele, acenando com uma das mãos e esfregando os olhos com a outra.

A parte de baixo daquele edifício era um imenso salão onde havia uma mesa retangular somente, com dois touros esculpidos em cada ponta. O chão, por uma influência oriental, era todo em madeira polida de um tom carmesim, contrastando com as escadas de mármore. Elas subiam em forma da letra "s", localizando-se nos extremos desse salão. Era costume por lá, subir por uma e descer pela outra. Escolheu a que apontava para o norte, talvez tal atitude lhe inspirasse algo, afinal queria dar um norte para sua vida.

Quando chegou ao andar de cima, Sabázio o chamou para a cozinha. Queria comer seu desjejum predileto, uma suculenta vitela, ainda que não fosse seu costume prepará-la. Retirou parte do sal que cobria um bom pedaço da iguaria, e passou a assá-la num fogo brando.

- Onde estão todos? - indagou o visitante com alguma surpresa.

- Os serviçais da casa? - inquiriu Sabázio, espreguiçando-se todo nesse momento e

encarando o visitante com expressão de dúvida.

-Sim, claro - confirmou o amigo.

- Dispensei a maioria, queria sossego. Mas vejo que não previ tudo - considerou, sorrindo e bocejando muito.

- Oh! É quase meio dia, Sabázio, não me venha com essa agora! - bradou com descontração e intimidade, maneiras que só são vistas entre velhos e ternos amigos.

- Como queira - sorriu e olhou mais detidamente o camarada - mas o que lhe importuna? Diga de uma vez, pois está com a cara péssima - e fez uma expressão exagerada.

- Uma coisa terrível! - respondeu de modo alarmado o visitante, enquanto passava uma jarra com óleo de oliva para Sabázio. Suas mãos pareciam tremer.

- O quê? - preocupou-se Sabázio, que tinha as sobrancelhas arqueadas agora, diante da declaração do outro.

- Um sonho que tive hoje, a tatuagem... Não sei o que dizer, meu amigo.

Após relaxar as feições, com voz sonolenta e cara de enfado, considerou o anfitrião: - bem, isso não me parece novidade e não merece maiores preocupações ou considerações, meus bom amigo. Acredito que nós dois precisamos é de mais sono, isto sim!

- Vou me casar em breve! Isto não lhe diz nada? - disparou finalmente, em tom confuso.

Com essa revelação tudo mudou.

- Agora sim, concordo, é um fato muito preocupante, meu caro amigo - as feições de Sabázio eram de um horror solene.

- Então, reconhece?

- Ora! Sempre lhe disse, alertando-o para tal desventura. Não é possível que tenha esquecido de tudo quanto o prevenir - agastou-se fervorosamente, mas sem uma irritação verdadeira.

- É mesmo, devo reconhecer - ponderou o visitante que lembrou dos vários avisos, muito mais que insistentes. - O que devo fazer agora? - tornou ele, fitando o amigo com expectativa.

- O dia está muito bonito - disse, botando a cabeça do lado de fora por uma das janelas, observando o céu quase sem nuvens - vamos por nossos trajes de caça e sair - falou em tom mais sério do que se poderia se presumir inicialmente.

- Não zombe de mim! - ressentiu-se o outro.

- Zombando! Você se comprometeu com a filha do homem mais poderoso e perigoso dessa parte do mundo, até o rei de Castelle Real o teme, sendo que mesmo o senado romano o respeita e o prestigia. E acha que estou zombando. Preciso pensar numa saída, se é que existe alguma - passou a mão pela testa, puxando os cabelos para trás e os soltando a seguir. - Não vai ser fácil!

Depois deu um tapa surdo no peito e disse:

- Olha, dada a nossa velha amizade e o conhecendo como o conheço, o que mais me preocupa é por quais caminhos você chegou a essa resolução.

- Desculpa-me, Sabázio, é o desespero.

- Está se vendo. Claro que não o culpo inteiramente por ter se comprometido nesse noivado, seria até uma insanidade tal afirmação, pois não existe moça mais bela, formosa e rica do que Cercira. E isso lhe traria riquezas e poder que dificilmente alcançaria numa vida. Sem falar que poderia um dia alcançar a corte de Castelle. Pensando bem! Não é tão ruim assim - tinha os olhos fixos e mirados para cima, como se aprofundando nas próprias reflexões.

- Você sabe que não é isso que está em jogo. E muito me admira essa sua conclusão, você mesmo não se alistou, apesar de ter o dote necessário e mesmo certo grau de parentesco com o alcaide - replicou o visitante.

- Sim, somos primos distantes, mas nesse caso não quer dizer muito.

- Não importa, por que não quis concorrer à mão de Cercira? - questionou.

- Eu! Por convicção religiosa, é claro - empertigou-se. - Entretanto, todo o restante dos homens do principado de Arquitaurus se alistaria de bom grado se tivessem as condições. Sem mencionar os pretendentes dos países estrangeiros que marcaram forte presença.

- Por convicção religiosa, você disse? Religiosa! - repetiu o visitante, ainda espantado com o que ouvira. Sem ter dado mais atenção a nada.

- Sim, evidente! Não posso subir à mansão dos casados sendo um devoto de Baco, o renascido deus do êxtase. E minha fama não é nada boa nos corredores palacianos, e claro, muito além deles também, na metade das casas das melhores famílias de nosso povo - passou a mão no cabelo e parou de repente, como se estivesse ainda elaborando melhor aquele pensamento. - Bem, para ser honesto, posso acrescentar que em muitas outras casas o valor dado a mim é o mesmo. Contudo, compensando a tudo isso, em lugares menos prestigiosos ou de má reputação, eu ganhei certa notoriedade. Mas sabe de uma coisa... é inútil qualquer explicação aqui, você mesmo é meu melhor amigo, e não posso desejar outro melhor, e sabe muito de tudo isso.

- Achei que tinha perdido sua consciência há muito tempo, Sabázio!

- Pois bem espertinho, está aí nossa diferença e semelhança. Eu a perdi um dia, é fato, mas você nunca a teve - retrucou ele.

O visitante o mirou perturbado por alguns instantes.

- Incrível, sou forçado a lhe dar alguma razão - disse finalmente com uma expressão de espanto solene.

- Não tenha dúvida disso! - considerou Sabázio com visível satisfação.

- O principal é que não quero fazer Cercira infeliz - prosseguiu o visitante, refeito um pouco da fala anterior.

- É uma preocupação verdadeira da sua parte, eu sei! Inclusive, pedirei mais por você em minhas preces semanais e nos meus ritos mensais a Baco, fique certo! - e fez um gesto engraçado com as mãos que não foi percebido pelo companheiro. - Mas me responda agora, como não magoar Cercira se você quer deixá-la. Tenho certeza de uma coisa, meu caro: você é uma escolha para ela em qualquer condição.

O visitante nada falou, pensando nas palavras do amigo. E Sabázio prosseguiu de um jeito quase profético.

- Pelo que me lembro, você foi a única exceção naquela lista de pretendentes, pois possuía metade do dote exigido. Isto só aconteceu certamente por influência dela, com toda a certeza. É do conhecimento de todos que o pai é muito sensível aos seus apelos. Dizem que até a deusa Atenas, em sua relação filial com Zeus, inveja Cercira pela influência que esta exerce sobre o pai.

- O que diz é correto e assombroso.

- Muito. Por isso, se quer de fato a felicidade dela, não tem saída, pode tratar de marcar o casório.

- Mas eu tenho que me ausentar de Arquitaurus.

- Somente se essa ausência for indefinida, aí sim, necessitará findar o compromisso de noivado. Em qualquer outro caso, não haverá nenhuma necessidade - interveio com a suficiência das pessoas que tem um olhar isento.

O visitante o mirou, uma vez mais, com surpresa e consternação.

- Meu caro amigo, se não o conhecesse bem, diria que está fazendo de tudo para que me case.

- Eu, impossível! - exclamou com veemência - tento apenas entendê-lo nesse mar de tormentas que levam os navios da razão a se despedaçarem contra os rochedos da insanidade. Ou você imagina que tudo na vida pode se resolver com um estalar de dedos?

Sabázio sentou-se à mesa e convidou o outro a fazer o mesmo. Enquanto um mastigava o alimento com prazer e sem pressa, o segundo pensava na confusão que estava sua vida, que era uma mescla tanto de tribulações reais como imaginárias.

- Bem! - exclamou Sabázio ao visitante, parecendo mais acordado e disposto do que antes. Ali cortou um pedaço de vitela e colocou numa cratera funda, oferecendo ao amigo também pão, leite e mel. - O que pensou primeiro em fazer a respeito? - questionou entre uma bocada e outra.

- Estou pensando em ir até lá e falar com o alcaide.

- Se tiver coragem, é uma opção mais honrosa - de repente, fez uma expressão estranha e ansiosa. - Espere um pouco! Por que realmente não quer se casar? A qual ausência se refere? - questionou como se despertado por uma possibilidade que só naquele instante passou a enxergar mais claramente.

- Agora você entendeu a gravidade do que apresentei? Quando tentei lhe explicar de fato o que ocorria, não quis me ouvir.

Fez uma breve explicação do sonho e como sentiu sua tatuagem logo pela manhã. Passou a acrescentar mais alguns detalhes que eram ainda desconhecidos pelo amigo. Mais uma vez mostrou a marca da sua mão. Constituía-se dos quatro primeiros números em algarismo romano, na parte superior, abaixo existia um círculo de sete estrelas, circunscrevendo um olho fechado e, imediatamente abaixo deste, um olho aberto e raiado. A palavra latina "Opus" aparecia no final de tudo.

- Não acredito nessa história - pontuou o cético Sabázio, que via tudo aquilo apenas como uma esquisitice do amigo ou alguma maldição que só lhe faria atrapalhar a vida. Não era a primeira vez, nem seria a última que falaria daquela história com ele.

- Esta marca apareceu na minha mão quando tinha sete anos, eu lhe juro, como se por uma magia. Uma velha sacerdotisa do templo de Apolo na colina de Minerva previu que de sete em sete anos poderiam haver mudanças no meu destino ou coisas incomuns aconteceriam. E agora parece que chegou o momento mais decisivo.

- Qual? - indagou Sabázio, franzindo a testa.

- Ir em busca de meus ancestrais.

- Partir, é isso que quer dizer?

- Sim.

- Quando?

- Logo.

- Por que de imediato?

- Não suspeita?

- Não!

- Pois deveria.

- Deveria?

- Sim, ou pelo menos, acredito que deveria.

- Diga logo então, homem.

- Hoje completa vinte e oito anos que fui encontrado.

- Por Zeus tonante! Perdoe-me, havia me esquecido completamente - disse o outro, enquanto lhe dava um afetuoso abraço. - Esqueça a caça, temos que providenciar tudo - sua mente, nessa hora, parecia agitar-se dentro de sua cabeça, esquecendo de toda a conversa até ali.

- Tudo o quê?

- Para a celebração do seu aniversário.

- Uma festa! Nem pensar, Sabázio. Você endoidou?

- Nem pensar? E o que acabara de me dizer sobre o 'deveria'.

- Não leve tão a sério o que eu disse, estou num momento difícil, amigo, de decisões crucias para minha vida, e sei lá mais o quê.

- Não importa! Além disso, o que será da minha reputação quando as pessoas souberem que foi o aniversário de meu melhor amigo e nada fiz para celebrá-lo, justamente eu, Sabázio, o festivo - seu tom austero, eloqüente e resoluto convenceria a qualquer estranho de que ali estava uma pessoa que se preocupava com falatórios e reputação.

- Reputação? Você só pode estar brincado, Sabázio! Você não tem jeito mesmo - riu por uns instantes e percebeu que o amigo não arredaria o pé daquela decisão. Ele, definitivamente, não entendera o significado da conversa, ou talvez mesmo, não quis entender - Desisto! Faça como quiser então, só não espere por minha participação nesses preparativos.

- Eu cuido de tudo, mas esteja aqui pela segunda hora após o pôr-do-sol. Ah, desejo-lhe sorte, meu amigo, nessa conversa. - Antes de o amigo sair, ainda gritou da janela: - volte vivo, senão a festa ficará sem graça! E eu não quero arranjar motivos para entristecer nossos convidados.

Sabázio de fato não acreditava que o amigo romperia o compromisso de noivado tão facilmente. No máximo, conseguiria uma boa admoestação do alcaide, embora uma voz no seu íntimo o deixasse inquieto com aquelas recentes esquisitices do outro.

Desceu por onde havia subido, sem se dar conta de que agora estava mais sozinho e decidido do que jamais estivera antes. A visita ao companheiro rendera quase nada do que queria encontrar, um pouco de consolação e talvez, algumas respostas. Por outro lado, uma coisa tinha que reconhecer, no caos profundo em que se encontrava não havia melhor pessoa para se confidenciar, pois Sabázio, destituído de uma maior vocação para o conselho e para sutilezas, forçava o indivíduo a enfrentar as suas próprias tempestades, evitando as terríveis rochas da piedade de si mesmo.

Saiu da casa do amigo e foi em direção ao palácio, tentando manter a firmeza de sua resolução. Apeou da montaria e encarregou os palafreneiros dos cuidados com o animal. Entrou pelo pátio circular até o salão da guarda, onde prontamente foi anunciado. Esperou mais um quarto de hora. Nesse período, ficou admirando o estandarte da família do palácio, um touro branco de chifres pronunciados, tendo sobre suas costas um falcão com as asas abertas, dando a impressão de um magnífico touro alado. Lembrou-se, por um momento, a parte de seu sonho com o estranho leão alado.

- O alcaide irá recebê-lo num instante - disse o serviçal com solenidade.

Ao entrar no salão, reservado para audiência, o empertigado senhor o aguardava, apresentando um semblante não menos que grave. Um falcão empalhado encimava o trono que era de um esplendor incomunicável.

- Obrigado por me receber nesse momento e sem um prévio aviso - disse, curvando-se com grande deferência, e depois levantando a mão ao modo dos romanos.

O alcaide o mirou com seus olhos penetrantes que constrangeria o mais altivo dos homens, mas, estranhamente, não exerceu esse efeito sobre aquele moço, ou pelo menos da forma que acontecia com os outros.

- Vejo em você gestos apressados e o olhar intranqüilo. O que eles podem significar? - acrescentou o governante, mirando com beligerância. - É muito possível que tenha alguma questão relevante e custosa de comunicar - declarou sem rodeios e com um tom de voz terrível, ao menos assim parecia para o visitante.

- Vossa alteza, uma questão de suma importância me traz aqui hoje, é verdade. Não posso continuar o noivado com Cercira. Devo declinar, pois partirei para as terras ermas, além dos rios Reno e Danúbio, nos domínios de Gorjala, em busca do meu passado. De certa forma, da minha própria vida. Como o altivo senhor sabe, tive um pai adotivo e nada mais sei sobre a minha origem e meus ancestrais. - As palavras saíram de sua boca como flechas certeiras e ele mesmo ficou admirado de sua coragem ali.

Após um silêncio entre os homens, pela menção daqueles nomes, quase proibidos, e também o conteúdo da conversa, disse o alcaide:

- Muito bem! Eu abreviaria sua vida por muito menos, ainda mais por essa insolência em quebrar um compromisso de noivado! - seu tom não deixava dúvida do que falava.

O moço sentiu que começou a tremer, embora uma chispa de alívio o trespassara naquele mesmo instante.

- Por outro lado, nunca mereceu minha filha. Portanto, de alguma forma, faz um favor a ela e a mim também, pois sempre tive dúvida e receio quanto a esta escolha. E parece que estava certo - declarou de forma inflamada, porém não inteiramente verdadeira. - Sairá daqui de uma vez por todas e não volte a abusar de sua sorte.

- Vossa Alteza, não abusarei e peço desculpas por tão inconveniente desfecho. Porém, meu destino é necessário seguir, como me é inspirado. Prefiro romper desta forma dolorosa a causar mais danos a alguém que tanto estimo. Não posso unir-me a uma pessoa tão doce como vossa filha, quando meu destino ainda é incerto, seria uma covardia, ainda que não reconheça isto.

- Não sei se admiro mais sua coragem em desafiar-me ou sua insanidade, rapaz - disse-lhe com a sinceridade dos homens mais fortes e poderosos.

- Apenas tenho a coragem de dar voz a minha alma, coisa a que poucos se arriscam. E disso se tira toda a diferença entre os homens - e o olhou com um conhecimento que perturbou o falcão, mas este preservou seu íntimo.

- Não se apresse com tais atitudes, pode lhe custar a vida - advertiu o alcaide.

- Não acredite, Vossa Alteza, que isso seja uma das tarefas mais fáceis para qualquer um. No meu caso, se tornou a única possível dentro de mim. Sei que pagarei um preço por isso, contudo, como dizem os sacerdotes, antes a vida do que a alma, meu senhor. Acredito que nunca mais me furtarei a ser um bom vassalo dela - concluiu o moço imediatamente, surpreendido consigo próprio. Para o bem da verdade, alarmado.

- Está dispensado! - ordenou sem deixar margem a uma contraposição.

Quando o moço saiu, o alcaide refletiu: "ele, sem dúvida, poderia ser um ótimo regente, pena que a loucura ou uma obstinação insana tenha seu juízo agora".

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