en-Carnaval e Castro Alves

22/02/2017

"O carnaval tem sua beleza e prodígios, como os apelos da alegria e o grande espetáculo vivo e, por vezes, incrível.

Multidão, solitários, distraídos, gente, gente em descontração e exaltação dos sentidos. A música favorecendo o ritmo, o movimento, o corpo, as sensações e o instante vivido.

Ah, se tudo fosse isso?

Mas não saem apenas pessoas, trios, blocos de folia para o carnaval de rua. A vergonha anda por lá nua entre os camarotes resplandecentes e no abuso de cordas e vícios.

E mesmo assim, muitos não a enxergam, pois a vestiram prodigiosamente com o véu da fantasia, sonho de folia  criado só para alguns e assumido pela maioria.

Nesse momento, toda sensatez que percorria as ruas e vielas da Bahia naufraga calamitosamente. Numa terra de belos faróis, o da consciência, perde a luz à noite e escurece o dia.

Não importa o que se diga, a dor não se resigna nos seres sensíveis...  Ao olharmos com bastante atenção, a vergonha está lá em sua crueza reverenciada de silêncio, enquanto o som dos trios nas alturas, explodindo.

Ó Castro Alves! Em que mares cansados em uma esplêndida baía os braços escravos culminaram na vergonha de toda uma nação?

Em que terra há uma alegria contagiosa e ancestral, repartida em razões e em sentimentos?

Em que ares podemos olhar nos olhos da indiferença e nos calarmos, dançando o último sucesso do carnaval?

Em que fogo foram incineradas as promessas de liberdade e progresso?

Douto poeta, será ingratidão falar?

Vejamos as esquinas da Bahia, são maviosas e estreitas. Uma pista, Alves, é mesma terra brejeira e o mesmo povo de antes.

Com esses apelos e palavras, olhai detidamente o pelourinho de hoje. Observai ainda mais esta cordas quem as segura e a quem elas querem separar...

E não é só isso, douto poeta! Ah um estranho minotauro que ronda esta terra, cada vez mais dentro do labirinto do cotidiano, e completamente livre no carnaval.

Ai de nós|"

Carlos França