en-Lembranças da feiticeira Medricie

19/02/2017

"Via-me indefesa diante da fera, ao mesmo tempo, tão entregue e possuída. O lobo era majestoso e de todo inverossímil pelos modos e pelo tamanho. Não me assustei tanto com sua presença, mas algo do seu olhar antigo e terrível trespassava a carne em direção ao nosso íntimo, vasculhando as intenções e a nossa vontade enquanto feiticeiras.

Era impossível escapar de tão profana investigação, como se ela brotasse das entranhas do próprio ser. Mas contra todas as possibilidades, aquilo ia me purificando do hiato existencial e da realidade comum vivida pelos homens. E pela primeira vez, vi luzes infinitas penetrarem absolutamente tudo.

Compreendi que a verdadeira vida é uma comunhão fascinante e duradoura, nutrindo-se de um saber-se na verdade de cada instante. Nesse ponto, o algo raciocinante contraiu-se por uma vertigem qualquer, sobrevindo a vivência pura e intangível dos que lidam com o mistério.
Pela minha escolha, detive as sombras e me feri na luz.


Caí e me sustentei na substância espiritual recriada e inesgotável. Pelas luzes do meu próprio olhar, vi a travessia da minha vida elevando-se num gozo perene. Tudo recomeçou no que sou e no que serei. Então, a imortalidade me alcançou sem que isso fosse uma necessidade ou um anseio, prostrou-se à minha frente despojada das vestimentas da dúvida e da fé. 


(QUANDO DORMEM AS FEITICEIRAS - Carlos Costa-França)