Jorge Amado - Uma visita surpreendente

23/02/2017


Num certo domingo de agosto de 2015, eu e Sunna fomos conhecer a casa de Jorge Amado e Zélia Gatai localizada no Rio Vermelho, aqui em Salvador, Bahia. Tudo se deu de uma maneira um tanto inusitada.

Sunna sonhou que estava lá, andado pelos jardins da casa. Esse fato despertou nossa curiosidade, até porque os sonhos de Sunna são um misto de intuição, mistério e preciosismo.

Ao pesquisar sobre a vida dos escritores, descobrimos que a casa fora aberta a visitação no final do ano  anterior. E mais, que agosto era o mês de Jorge. Ele nasceu e faleceu nesse mês. O que nos deixou entusiasmado com o achado.

Não deu outra, no dia seguinte, fomos ao encontro do refúgio do casal Amado. Era uma tarde generosa de inverno, céu claro e clima ameno. A luz parecia brincar com as cores de modo criativo e algo festivo, como se na Bahia o talento pudesse ser colhido em todos os cantos.

Numa certa altura, já no bairro do Rio Vermelho, subimos uma viela estreita com casas em ambos os lados, era a rua Alagoinhas. Justamente a rua da casa de Jorge e de Zélia.

Percorrê-la parecia trazer a calma de um passado distante e o aconchego de cidades do interior, mas também anunciava em sua carne de pedras, tijolos e grades que aquilo mudaria com o passar dos anos.

Aliás, já havia mudado, senti em algumas casas um rumor nostálgico, uma tarde que não saudaria antigos moradores mais.  A cultura social havia se alterado em demasia, promovendo a subida de muros e o desconforto de corações livres.

O fundamento de outra época pairava sobre aquela estranha ilha de casas, passagens, portões, janelas e portas. A certeza que algo adormecido não mais despertaria por aqueles lados, e surgiria no futuro um furor inevitável de  transformações e novas construções.

Por enquanto, o tempo-espaço recambiava sua linha mestra em tributo aos visitantes e transeuntes, mesmo aos mais incrédulos, invadindo a cronologia das árvores para ofertar ali a sonolência benévola daquela tarde.

Então na casa de número 33, que me chamou a atenção, pois em numerologia é considerado uma vibração superior, pela repetição de números, no caso, o numeral 3. Ainda com esses pensamentos na cabeça, demos uma paradinha e olhamos a fachada singular que agora se destacava de tudo mais.

A entrada abria-se para todos numa escada com acabamento em mosaico, e, por todo lado o branco nos recepcionava trazendo sobriedade e leveza. Não sei se estava certo, e mesmo se me aproximei da casa da maneira correta ou legítima, mas achei aquela fachada um tanto suspeita de coisas interessantes e boas.

Lembrava algo como uma igrejinha numa longínqua cidade empoeirada, signo de fé e de uma presença divina, ou ainda, as vestes sagradas de um terreiro  de candomblé que ali foram tatuadas pelo zelo de um coração sonhador e generoso.

Não sei direito realmente. O que foi me dado a saber pertence mais a poesia e as encruzilhadas entre os mundos. De todo modo, estávamos na Bahia e o sincretismo vai além do vaso espiritual, da assanha cultural, da ladainha interminável de preces de todo tipo, da representação de histórias, de signos e peles, visitava memórias e afetos tão somente.

Ali subimos as escadas, tocando levemente em seus azulejos, tentando sentir a história daquelas pedras, como se isso fosse possível. Que na verdade é, e não é a um só tempo. E de quem ali passou no correr das décadas, sem esquecer o testamento estético que resultou naquela composição em mosaico.

Depois de formalizarmos nossa entrada na recepção, demos de cara com os Jardins, uns bancos de alvenaria, também com acabamento em mosaico. Estes debaixo de árvores frondosas, quase as rodeando. Já o sabíamos, neles sentava o casal amado muitas vezes. E junto a um deles está os restos mortais de ambos.

E mais a frente e no começo do jardim, próximo a casa, uma escultura estilizada de Exu. E como estava informado numa placa, ali foi assentado esse Orixá, segundo os cânones do Candomblé.

Também, em parte dos caminhos de pedras que circulam pelo jardim, o símbolo de Oxossi. Sem dúvida, aquilo tem sua força e seu mérito, ainda que não sejamos adeptos desse culto.

Portanto, damos de cara logo com duas dimensões, uma cultural e outra mística. E atrevo-me a dizer que provavelmente uma terceira, que é própria dimensão do casal Amado e o seu lar.

A energia ali é vibrante, benéfica e incrivelmente nutridora, levando-nos a um certo aquietamento e interiorização. É uma viagem em que a curiosidade e os sentidos fazem as melhores núpcias. São poucos lugares que emanam essas características.

Não é exatamente um sentimento religioso, não, embora este rodopie lá dentro como um peão velho e bom. Vai além, escandaliza a rigidez de padrões, aguça o momento para o indizível que passa pelo coração que ama todas as coisas.

Diz de uma sacralidade isenta e sem limites, da riqueza de vidas e das potências dos homens e sua criatividade. Sim, mora lá uma obra humana, mas pululando de divindades e dez mil outras peculiaridades, que só se conta no coração de uma única vez.

Alguns janelões apresentam vários momentos da vida de Jorge Amado, incluindo aí sua obra, viagens e relações pessoais. Tudo é apresentado através de audiovisual que muito legal e bem produzido.

Existe em todos os ambientes a mesma qualidade, capturando-nos a atenção de forma primorosa, pois complementa o que é apresentado em cada espaço. Mas talvez nada nos prepara para certos ambientes, como é o caso do quarto do casal Amado.

É uma emoção muito grande, sobretudo pelas pessoas que eram e a própria história de amor e vida juntos, independentemente de qualquer coisa. Só isso já se traduz em algo impar e maravilhoso.

Chegamos no quarto e lá permanecemos por um bom tempo de nossa visitação, apreciando os objetos, o espaço, a cama, absolutamente tudo. Mas isso não basta, é preciso deixar-se capturar pelo momento e pelo sentido de um tempo e de pessoas especiais.

No fundo, estávamos ali simplesmente sentindo, sentindo e sentindo o ambiente. E fomos brindados na entrada com um trecho de amor, de uma das obras de Jorge, que foi sendo declamado com força poética na clareza da voz, rebombando pelas paredes de modo impecável.

Enquanto um feitiço de luzes caleidoscópicas giravam em todas as partes, num balanço de cores e sombras incontáveis. Foi muito inspirador e um momento mágico. E uma única certeza, não havia como transmitir  inteiramente todos sentires.

Carlos França