O Culto do Lobo - Prólogo

22/08/2017

Aqui nesse recanto esquecido do mundo, fiquei conhecida como Marie Christine Émilie Deffand, ou mais apropriadamente, Madre Marie Deffand. Porém, de fato, o meu nome é Urtra, a feiticeira do Vale dos Lobos, este verdadeiro nome de cuja pronúncia vem sentindo saudades os meus ouvidos, que estiveram por muito tempo cativos do silêncio sublime.

Vindo a compreender hoje, nesta noite sem lua, que a verdade de meus sentimentos só é superada pela coragem - a coragem de procurá-los incondicionalmente, mesmo sem o que parece ser a permissão dos dias. Tendo isto conseqüências, é claro. Uma imediata talvez, é o fato de me descobrir na vida desses dias mais recentes, poeira em suspensão, similar ao que ocorre quando uma multidão passa e surge no seu rastro uma nuvem disforme, como acontece algumas vezes, um pó escuro bruscamente levantado pelo vento para só depois cair nervosamente de volta ao solo. É como posso narrar a fragmentação do meu ser.

Não me iludo mais com muitas coisas, mas confesso: dos sonhos tenho tido saudades e, às vezes, quando incrédula de tudo, da ingenuidade de menina. Feiticeira me fiz pelo coração e pela vontade e de nada posso me arrepender por ter escolhido este caminho pagão e solitário, vivendo à distância do mundo, dos homens e do seu Deus. Mas, curiosamente, sempre estando presente quando da necessidade de um deles.

Quero abrir definitivamente neste dia, minha alma, meu coração e minha mente para o mistério: limite e critério da minha vida, pois não alcançarei mais minhas pegadas de ontem. E agora, sôfrega, escrevo meus últimos rascunhos, meus últimos passos. Passos essencialmente em forma de palavras e de sentimentos.

Carente de qualquer apreensão de tempos passados e sem o calor da juventude primaveril, ardente em entusiasmo, tentarei nestas linhas, forjadas na luta da pena contra o papel e no forno brando do meu querer, ser fiel aos meus vários amanheceres, enternecidos apenas no acreditar de uma existência em que todos poderiam ir à busca interior, à procura diligente para um encontro consigo próprio, tendo, quero apontar humildemente, sido alcançada esta convicção após essa longa vida. E hoje, absolutamente convencida, se não do mais importante mistério da existência humana, certamente do mais verdadeiro.

Desta noite fria, não quero mais nada e nem alimentarei estas páginas com o que acredito, preciosas palavras. O sono me seduz, carregado que é da embriaguez dionisíaca. Lá fora no bosque, ouve-se um grasnar que se fez alto dentro da casa pela proximidade e silêncio, reverberando como sinos majestosos na nave central de uma igreja. Um pássaro faminto acabara de anunciar seu despertar noturno.

***

O dia, nesta sexta-feira de meados de março do ano de 1531, amanheceu envolto em brumas solenes para depois clarear completamente. O frio já não é tão intenso como foram nas primeiras horas do alvorecer desta manhã, pois a primavera se abrirá daqui a alguns dias. Minhas tarefas costumeiras estão cumpridas em grande parte, graças a minha disposição matinal, quando, desde mais cedo, levantei-me para o trabalho, podendo me dedicar à escrita pelo resto do dia, se assim desejar. E não perdendo mais tempo com outros afazeres domésticos que sempre existem, ainda mais se amiúde procuramos por eles. Questionava-me em voz alta:

- Onde, por Hécate, eu deixei os escritos de ontem?

Isto, enquanto remexia os papéis depositados sobre a mesa, muitos ainda desordenados. ¾ Aqui está, "... do mais verdadeiro". Pois bem, dando continuidade aqui mesmo, como querem a pena e a minha vontade permanente.

A morte... Aliás, a boa morte, esta já me espreita na sua paciência e persistência dos séculos incontáveis, sendo uma realidade que não me é dada dominar. Mas agora, talvez com mais clareza e humildade, ajudada por uma noite de sono tranqüilo e revigorante, principia um entendimento em mim bastante sensato. Este, em especial, aponta para a necessidade de agradecer a sua presença constante, não só no agora desses dias, mas durante o que foi toda a minha caminhada nesta longa vida, procurando, de alguma forma, alcançar um juízo superior em relação a esses assuntos enigmáticos do destino, muito mais do que tenho me dedicado. Isto para melhor reconhecer que, além da minha incansável pena, que ora trêmula e febril rabisca este carcomido pedaço de papel, ela, a morte, é a minha outra companheira que sempre esteve comigo e vem me amparando no ocaso da minha existência. Companheira esta, diga-se, com toda devoção, tenaz e fiel como nenhuma outra com quem tenha convivido.

É quando, para minha surpresa, no mesmo instante, debruçando-me sobre a mesa velha e gordurosa, impregnada dos odores mais diversos pelo lidar das ervas no passar dos anos, vagando ainda na tentativa da busca de recordações mais antigas, e, uma vez mais, revendo estes últimos pensamentos escritos no envelhecido papel, é que, ao me voltar, girando quase súbita e involuntariamente meu corpo para um lado do recinto, fixando agora o olhar na pequena janela, esta entreaberta para fora, pude escutar claramente um recado trazido pela cálida brisa dos espíritos aéreos e pelo vento leste:

"- Prepara-te, grande senhora. Muito já se cumpriu na tua existência e pouco ou nada resta".

Dou fé, porém...

Que os dias presentes se tornaram meses e foram passados numa rotina laboriosa, tornando-se a própria sorte da vida. Para só então, depois de um longo tempo, descortinar mais uma vez o caminho do entendimento razoável e imperecível. Contudo, não consegui sair ilesa desse período, por causa de uma das maiores aflições do ser humano - a desilusão com a vida - que, como todos sabemos, os dias rotineiros fazem questão de trazer maliciosamente com eles. Também ainda tenho que ser verdadeira até comigo mesma, um outro motivo se somou, este justamente, com relação a minha outra companheira, a morte, sobre quem tenho falado com atenção especial.

***

Com o arrastar dos meses, e sem os sobressaltos costumeiros que o corpo acusava pela íntima aproximação da donzela da foice, fizera-me estranhamente e por inteira, não mais me habituar sem sua presença, sem seu hálito adocicado da liberdade desejada. A ponto de chamá-la quando não se deitava comigo ou se afastava sem aviso e, de livre vontade, cheguei a propor a comunhão eterna sem mais demora, sem mais atrasos. E ela, fingindo escutar atentamente o que considerava uma proposta justa, deixava-me até acreditar que estaria disposta naquela noite pontualmente ou no mais tardar, se esta sobrecarregada com sua prima, a "Peste", em seus trabalhos, no próximo alvorecer selaria os votos do sepulcro. Inclusive garantindo vir de forma resoluta, até porque estaria incentivada pela prima em definir nossa situação, fazendo-me sentir, na minha credulidade voluntária, bastante aliviada. Alimentando, como não poderia deixar de ser, a expectativa de uma solução breve. Todavia, insistentemente, não tomava este meu corpo. E assim, perseverantes herdeiros, passaram-se muitas noites em núpcias não concretizadas que, para mim, noiva inconformada, pareceram intermináveis. Por isso, veio acontecer o pior.

Num impulso desmedido, estranho até para mim mesma, acostumada à serenidade das noites sem lua, à decência da idade e, principalmente, pela resignação alcançada, vim novamente inconsolada e empertigada, sob a tutela dos meus instintos, dirigir-lhe palavras proibidas e severas.

- Ó senhora dos vermes imundos, o que espera? Por que a demora e as promessas não cumpridas, não tendes respeito pelo empenho de vossa palavra suja?

Mas... Para minha surpresa e desespero, simplesmente ela se cala... Aparta-se com uma timidez desconcertante, beirando quase a um titubear pueril, mesmo em face de por trás daqueles vazados olhos intemporais se esconderem toda verdade do tempo implacável. E acontece isso, justamente no momento em que se estabelecera mútua confiança em nosso convívio. Quando mesmo confissões de suas dificuldades e limitações existenciais me eram confiadas sem restrições, ou ainda, de seus desejos de donzela. Que mortal poderia desconfiar que a morte tem seus anseios secretos e suas responsabilidades? Sei agora que exigi demais de sua boa vontade...

Saibam todos, quantos puderem me ouvir! E falo especialmente para aqueles que ainda poderão levantar injustamente qualquer dúvida de sua idoneidade e respeito para com seu ofício ou em relação a atos desonestos, numa relação fraterna, como a nossa que fora estabelecida por afinidade e solitude. Aprendi devotadamente, não fora de forma alguma descortesia de sua parte, ciosa que é sempre de suas obrigações e dos apelos dirigidos a ela, e sim, estariam aí, as coisas maiores do universo que estão acima de nós duas.

Com isso, e diante de certas evidências, surgiu em mim uma inquietação - aquele mínimo de desconfiança que precede uma certeza - Estava claro que havia um motivo muito importante para que eu permanecesse viva. Talvez algo que tenha deixado de cumprir. O que me fez lembrar, e muito oportunamente, a matriarca Bithias que, uma certa feita, dissera:

"Urtra, saiba! Ninguém é inocente de nada."

Por conta disso, como se um raio tivesse caído sobre minha cabeça, abrindo-a ao meio, compreendi toda a minha situação atual.

"Sim, sua tonta! Sua loba decadente! Sua desajeitada! Como deixei escapar de minhas lembranças?" - lastima para o vento.

Resta uma última e importante coisa a fazer neste mundo de brumas que só é uma. Tenho certeza agora, está relacionada com o livro que conta as façanhas e as dificuldades da minha antiga ordem, conhecida como a Irmandade da Loba. O escrito revela os últimos acontecimentos vividos na tradição do fogo e da Grande Mãe Terra. Narrando entre outras coisas: os grandes mistérios dessa Irmandade, o desaparecimento precoce, nossa vida em grupo, nossas lutas e nossas esperanças. Por essa tradição, orgulhosamente, tornei-me a sacerdotisa maior e matriarca perpétua, talvez, a única sobrevivente daqueles anos desaparecidos para sempre.

Sem dúvida, minha pena fiel! E por favor, desculpai-me mais uma vez irmã morte. Pois ainda, como percebeis, tenho os vícios da carne e as minhas virtudes são por demais atrasadas diante de vossa grandeza e sabedoria. Definitivamente então, todo esse tempo não se constituiu só de desejos frívolos ou uma birra filosófica com a morte. Como não consegui enxergar isso antes? Tantas vicissitudes e loucuras eu tenho passado desnecessariamente...

Ou não, velha loba Urtra?

***

O tal escrito foi por mim redigido a partir de minhas impressões e lembranças dos fatos acontecidos naquele serviço das mulheres-lobas. A tarefa me foi passada pela minha matriarca e sacerdotisa maior, antes de mim. Tendo como condição essencial o mais fidedigno relato daqueles últimos dias e, posteriormente, quando do seu término definitivo à entrega dessas letras reservadas para alguém que apareceria para buscá-las e só a ela, especificamente, deveria ser entregue.

Quando abandonei as vestes da igreja e fui para o campo, tive que enfrentar toda a sorte de vizinhos inescrupulosos e invejosos que estavam ali sempre dispostos de alguma forma a incriminar o seu próximo. Para assim, usurpar as posses da vítima ou como vingança por alguma contenda anterior. Seria uma condição indefensável, e particularmente fatídica para alguém como eu, possuir algum livro. Por isso, algumas vezes tive vontade de queimá-lo.

Tantas mulheres já tinham ido para fogueira ou para forca, por tolices inconfessáveis, mesmo sendo totalmente inocentes das acusações. Por isso tudo, como ainda se escuta dizer por aí, entre os de boa vontade: "qualquer acontecimento suspeito e incomum recai, em primeiro lugar, em mulheres idosas de vida solitária". Hoje sei, de fato, por alguma fórmula maravilhosa da Grande Geradora do mundo que nunca consegui me desvencilhar realmente dele, por ser ele um verdadeiro amuleto e protetor de todos os meus trabalhos.

O livro envolto em pano negro do mais puro linho estava dentro de um pequeno baú que fora enterrado, ou melhor, guardado num falso assoalho no chão da cozinha, próximo ao forno de uma antiga cabana destruída num temporal há vários anos. Conservado lá, tornava a afirmar para mim mesma, por medida de precaução e segurança. Não obstante, nesse momento, o coração se acelera me dizendo de uma certa negligência pessoal. Trago então para minha nova morada a fim de uma pesquisa mais acurada.

No baú, encontravam-se outros pequenos objetos pertencentes à Irmandade ou à Grã-mestra. Particularmente o mais valioso era uma jóia, o anel da grande sacerdotisa antes de mim. Peça feita em prata e ouro marcada com grafia estranha a corrente ou ao latim dos eruditos. Conforme meus conhecimentos, seria a antiga escrita egípcia dos deuses, sobressaindo em relevo a serpente que engolia o próprio rabo, o "Uróboro" e um pentagrama com um olho de esmeralda ao centro. Ao admirá-lo, senti um impulso de colocá-lo em definitivo ao redor do dedo indicador. Como se, desse dia em diante, já alcançasse o estado de maestria que, antes, eu mesma acredito prudentemente, não me atribuía.

O que mais me surpreendeu fora ainda o perceptível cheiro do jasmim mais doce, misturado àquele pano negro na época do último acondicionamento. Suas capas curtidas da antiga pele de uma loba ressaíam pela sua tonalidade acinzentada, atenuando ligeiramente como numa pintura de mestres em vários matizes até o branco gelo. Ao abri-lo, vejo ainda com admiração a estrela prateada, bordada com fios delicados da melhor prata, realizada pelas mãos habilidosas da saudosa Cailantra. Não me escapa, mesmo já tendo visto tantas vezes, uma emoção forte, quase mesmo incontida, ao me lembrar de suas faces rosadas e joviais, como dos seus risos mais vibrantes nas horas descontraídas. E é difícil, constatei, mesmo durante todo esse tempo, entender que fiquei na continuidade perturbadora do tempo. Enquanto todas minhas irmãs se esvaíram pelas cicatrizes do destino. Porém, tudo parece continuar de alguma forma nas lembranças, nas ações e na minha única e verdadeira herança material, este livro nomeado há muito pela matriarca Bithias como: "Da Claridade e Das Sombras".

A pena deslizando suave entre meus dedos concorda sem vacilar. Ela me trata bem, e me ajuda a falar sobre as coisas mais diversas e tem sido fiel nestes quase três decênios, principalmente nos tratados herbóreos e de cura que tenho escrito e passado para os chamados "iniciados do norte", os druidas. Todavia, faz muito tempo, recordando-me com saudade de que nem eles aparecem e sei que provavelmente não aparecerão mais. Pois muitos pereceram e outros tentam manter a obra viva se escondendo dos olhos gananciosos e corruptores.

Minha missão foi cumprida no que pude fazer de melhor, disso podia até me orgulhar. Mas essa herança da Irmandade da Loba ainda não encontrara seu destino. Teria que ser entregue a uma pessoa em particular, como me fora determinado antes. E agora, com o que pensei ser a velhice e o fim da vida, há um desejo sincero de encontrar forças a todo custo para realizar esta vontade superior. Quando de um outro lado, também me vejo arrebatada pela possibilidade de não vê cumprida a intransferível tarefa, por uma total escuridão do caminho a seguir e que pouco posso definir pela minha própria vontade e consciência.

Passa, então, meus sentimentos a se confundirem na confluência do passado e do que vivo agora. Por quê? Pergunto-me embaraçada nesta outra angústia de sentir minha própria impotência. A pessoa nunca aparecera quando fora prometida a mim que apareceria algum dia. E isso agora começou a me atormentar mais terrivelmente do que pretendia eu mesma há poucos instantes. Será que cheguei até aqui apenas para alcançar esta terrível conclusão? Não podia acreditar nisso. Também não era o que parecia dizer minha voz interior. Devia confiar nessa voz, era o que de mais valor possuía.

Buscando a serenidade das flores que se abrem na primavera e a quietude da madrugada. Olho novamente com intimidade para aquela pequena janela que, tempos atrás, conduziu o vento da sabedoria dos séculos, a partir do portal leste. Durante a maior parte do ano, pela sua disposição particular, no avançar incansável do dia, projeta luz e sombras com diferentes profundidades por todo o ambiente. Variando grandemente a quantidade de claridade e os tons sombreados que a luz faz conceder de si própria quando assim confinada em lugares fechados, ou ainda mais ali, quando incidido sobre e entre anteparos de todas as formas, tamanhos e disposições. E não é por acaso que por essa mesma janela, novamente, vem uma brisa cálida penetrar com a suavidade dos perfumes das distantes montanhas, trazendo uma fragrância raríssima, sobretudo, acredito, pela importância da mensagem.

"- O pássaro prateado voa para longe de casa em busca do alimento da mente e do espírito... Não tardará. Pois sua causa é nobre e o momento propício. Apascenta de vez tuas dúvidas, minha cara dama dos ventos da tarde e do frescor da primavera, nós te bem dizemos e te servimos e fomos servidos. Porém só as ordens angélicas te darão o éter universal de que poderá participar em breve. Entretanto, isso não te levará à sepultura, pois teu corpo foi ungido por uma graça que está muito além da ciência dos homens. Nós seguiremos nossas obrigações eternas diante da criação e voaremos por toda a Terra, como arautos divinos, a anunciar as verdades de agora e as de ontem. Para que todas as criaturas, de todos os mundos, visíveis e invisíveis, não deixem de receber as sagradas mensagens da Deusa. Tu és também atmosfera dama dos ventos... E nós te abençoaremos no topo do céu. E lá construiremos séculos sem fim, em tua lembrança, o altar de todos os ventos".

Senti-me, então, possuída por um alento maravilhoso nas asas de uma paz profunda. Mas esvoaçante de vitalidade por favorecer a expansão da consciência em diversas esferas dos mundos invisíveis. Gozando, tinha certeza, uma plenitude por muito tempo não experimentada.

Apesar de logo em seguida, sentir-me como que desperta abruptamente de um transe. Tendo ocorrido, eu acredito, por naufragar em correntes de pensamentos contraditórios e inoportunos. Porém, ainda percebi que, de maneira sutil, continuava sendo enlaçada, agora, por um novo alento. Este bem diferente, mas como o outro, indescritível. Muito, é preciso esclarecer, pela exclusiva dificuldade de descrevê-lo aqui e neste momento. No que também constitui a ordinária e insuperável limitação das palavras, ainda que estas solícitas se ofereçam para a realização do augusto trabalho. Este, reafirmo, que é precisamente de desvelar em boa medida os sentimentos superiores para outrem. Quando quase já nem se consegue mais escrever, tomada que se é pelo próprio movimento dos princípios elevados.

Insisto, porém...

Procuro assim, simplesmente recostar-me com suavidade na cadeira acolchoada com penas de gansos (esta cadeira foi uma lembrança do convento a qual conservei sob a minha guarda. Qualquer dia desses, se me sobrar tempo, ainda me dedicarei a contar essa historia), localizada bem atrás, afastada da mesa de trabalho. Dirigia-me até ela e para aqueles lados do cômodo, ainda envolvida por certa embriaguez do espírito, tentando atinar para essa nova revelação dos espíritos do ar, ao mesmo passo que buscando manter a sensação de quietude e elevação que passei a sentir instantes depois.

Como isso continuava de alguma forma a aflorar dentro da singularidade e do poder que me envolvia, fui instantaneamente arrebatada para uma maior compreensão de mim mesma, compreensão esta, destituída de qualquer reflexão ou pensamento bem sucedido, este que digo, quando trabalhados a contento nos ditames da razão.

Foi nessa condição inesperada que novamente folheei a primeira página do livro - "Da Claridade e Das Sombras"- e não foi por excesso, o susto manifestado nessa hora. De maneira incomum, logo nas suas primeiras palavras escritas, as realidades mais próximas pareciam emergir, flutuando como penas no ar para depois, no segundo instante, irem e virem de todos os cantos. Por vezes, misturando-se numa recriação espontânea e incompreensível de caminhos nunca experimentados. Em parte, isso ocorria em função da grande magia irradiada dessa minha história passada; sendo outra parte, intuía, de uma não revelada até este dia de graça; e ainda de uma terceira e última, mais misteriosa, quase de existência duvidosa, pelo impressionante sentido e origem da minha essência, os anjos caídos. Tudo isso estava acontecendo, quando era subitamente conduzida para um mundo distante e imaginário e, incrivelmente, até para mim mesma, testemunha daqueles acontecimentos, no próprio instante, desconhecidos. "Nesses dias...