O Índio

18/04/2017

Minha gente anda como vento sob os arvoredos, enquanto nossos espíritos percorrem as planíces iluminadas ou as matas replenas de vida.  Em nossas corações, pedimos ao Grande Espírito que  ao tocarmos o chão com afeto, este se torne mais fértil, pois dessa maneira seremos ainda mais irmãos do povo árvore.

Minha gente molha os cabelos nas águas da vida  sentido nisso a suavidade dos primeiros brotos da primavera e a riqueza de toda a terra. E sem receio  ou impedimentos refazemos os rios da vontade e dos sentimentos que correm pela alma.

Minha gente  sente que  somos parentes da mata. E sentimos mais o nosso sangue quando o verde das folhas anda  veloz nas plantas.   Contudo, é apenas no olhar doce da criança, morando dentro do ser livre, quando  semeando a cura, o verdadeiro sentido da força do nosso povo.

Minha gente chama as águas do céu pelo seu nome carinhoso, abençoando todas as formas vivas como se não houvesse separação. Acreditamos que todos viemos da mesma semente e fomos crescendo como uma árvore enorme. Que somos diferentes apenas porque os galhos possuem muitas aptidões em suas ramificaçõesm incontáveis.

O sol é nosso pai, a lua nossa mãe e a terra nossa avó. E com todo respeito ao corpo da terra que nos sustenta e nos faz crescer, ela é também o nosso amor antigo e sagrado.  E para ela somos os guardiões que seguram a tocha que avança na noite escura, procurando os seres vivos e a própria vida, ainda que outros povos desconfiem de nossa vocação, ou achem isso de um valor menor. O que é lamentável, pois todos têm seu papel, e o nosso é esse, o amor e o respeito a terra, já que para o pele vermelha tudo é sagrado. 

Dançamos ao sol, a chuva, ao vento, pois o absoluto toca na simplicidade dos corações selvagens. Selvagens de tanta pureza. O fogo de nossas fogueiras se derrama como  larva opalescente de um  vermelho liquido para abrandar a escuridão e trazer o irmão calor. Nossa ciência e espiritualidade é uma coisa só. Não temos pretensões estranhas a vocação da terra. Nossa herança é o cuidado. 

O que sabemos é que houve uma quebra, uma abertura imprópria entre os mundos, um ruptura indesejável entre o natural e o que homem cria. Nem tudo é ruim, não. Mas lições não foram aprendidas, embora nossa existência, nosso exemplo, nosso suor, e por fim, nosso sangue derramado. A natureza não é um contraste, alguns a destroem com machados, serras, poluição e tantas outras coisas, mas nada se compara com o egoísmo e a ganância que a tudo trai e peverte.

Sofre o índio e o índio de alma, que no vale do coração do mundo, olha a incompreensão dos que a chama da verdade se perdeu no possuir, no ter apenas. Olha já sem destino, o próprio destino dos seres. A terra é um presente, será tão dificil o endimento disso? Por muito tempo, acreditamos que houvesse mais inteligência no mundo. Será que erramos?

"Passarinhos não destruam vosso ninho, ele é pequeno, único e belo, por isso mesmo o mais precioso de tudo." 

Carlos França