O manuscrito - Caravana da Alma

07/03/2017

"Há muito tempo nas proximidades do deserto do Saara, um manuscrito antigo foi descoberto em uma caverna. Uma criança o achou acomodado dentro de um vaso de cerâmica, ainda intacto apesar dos anos. Ficou intrigado com a pe­ça e, principalmente, seu conteúdo. Rolos de papiro, todos contidos e protegidos por um alforje roliço de coro. Ele o levou amarrado na altura do peito por sete dias até os sábios de sua tribo.

Primeira estância

Caríssimo visitante da vida, estou na contextura do sublime, pronto a te revelar um prodígio que poderá ser útil a você e a tantos outros.

O requisito inicial é ouvir esta mensagem no silêncio, dirigindo seu pensamento e todo seu coração para o bem de tudo quanto vive e respira. Esta é a primeira, mas não será a única recomendação ao longo do manuscrito.

Desenrole esta parte do manuscrito à primeira luz do dia. E antes de iniciar a leitura, você deve observar a luz cobrir o horizonte de raios por toda parte.

Da manifestação

Não me deram um nome exato, uma vida concreta, uma escolha verdadeira, um único chão. Uma língua pela qual se pudesse falar claramente, uma pele que exibisse marcas da juventude ou da velhice, um coração que batesse pela vida e pelos sentimentos. E ainda assim, vivo e amo. É, incrivelmente, amo! Amo você, por exemplo, extraordinariamente.

Do valor permanente

Mas não se deixe enganar por estas palavras ou por quaisquer outras. Estão postas aqui e ali, por todos os lugares da Terra e entre todos os povos, se você observar bem. Portanto, isto não basta! É necessário fazer algo a respeito, algo que seja singular e universal, algo que seja fácil e abundante, que se mostre e seja visto por qualquer um. Assim, o homem correto e virtuoso toma para si o valor da sensatez.

Da riqueza

O mais precioso de tudo é se surpreender a cada instante, já que a aventura da vida não pode ser ignorada ou aprisionada. No entanto, nada pode ser feito se tiver dentro de si os portões de sua cidade trancados; se em seus jardins apenas tiver plantado um tipo de árvore, um tipo de flor e um tipo de erva. Da mesma forma, se em seus lábios todas as palavras forem áridas, e o pior, se suas pernas possuírem o temperamento das pedras.

Do conhecimento

Como poderá ter discernimento e sabedoria de todas as coisas? Se nunca impor a seus pés ultrapassar os limites do que conhece e do que concebe. Se nunca afirmar a seu coração como é vasto o horizonte de quem ama. Se nunca compreender que a mente pode ir muito além de seu corpo, de suas crenças e das suas razões. Se nunca fizer seu espírito voar acima da ventania do mundo.

Do que existe

O que existe é bem maior do que se enxerga, se deduz e se crer. Sim, bem maior. Imensamente maior. Terrivelmente maior. Misteriosamente maior. Amorosamente maior. E para provar isso, apenas contemple, de relance que seja, a abóbada celeste.

Do mistério

Vejo e não posso falar com plenitude, pois não tenho uma língua poderosa que dê conta de todas as maravilhas do universo. Apenas uma língua emprestada do pó da terra. Esta, na maioria das vezes, frívola, indomável, volúvel, absurda e temerária. Se os homens gritam, apenas sussurro. Isto tem que ser aceito para que possamos continuar. Não há engano aqui nem no que pronunciarei de imediato: todo o bem, toda a verdade e toda a alegria é a paz de espírito que conquistarmos, o resto é travessia e luta.

Parte do capítulo, "O manuscrito", de Caravana da Alma,

Livro que se encontra no Clube de Autores