Resenha - O Culto do Lobo

31/08/2017

Uma narrativa densa e elaborada sobre uma irmandade de bruxas na Idade Média. Um misto de realidade histórica, feminismo , erotismo e ficção-científica que tecem uma trama original e surpreendente. O Culto do Lobo é um livro singular, que traz como pano de fundo a Inquisição e os valores da Idade Média. De maneira natural, situa o leitor nessa época e nos faz recordar o quanto das mazelas humanas ainda são tão atuais, mesmo com uma faceta refinada.

O eixo da história são os desafios, conflitos e a liderança da feiticeira Urtra a partir da traíção de uma das líderes da irmandade que tem como consequência a perseguição dos inquiridores. Ela então é escolhida como a nova matriarca da irmandade ou do que restou dela. Após seu rito de passagem, cerne da narrativa, recebe a missão de preservar o que fosse possível daquela tradição das chamadas feiticeiras-lobas.

O livro começa com Urtra nos contando a história recente de sua vida, manifestando aí certo amargor, misturado a um humor nada paciente, mas sem prescindir de seu poder e autoridade de feiticeira. Muitos anos já havia transcorridos, agora é uma feiticeira madura e orgulhosa de ter cumprido seu papel, ou quase .

É nesse contexto, que ao se sentir solitária e vendo seu fim se aproximar (ou assim acreditava, desejava, ou até mesmo, encenava para si mesma), Urtra, decide dar cabo a sua última missão, entregar um certo livro de sua antiga tradição a um desconhecido, como lhe havia sido determinado muitos anos antes.

Isso promove um novo alento em sua vida. Então, ela resolve procurar o tal livro em que narra as vivências ao lado das feiticeiras irmãs em seus últimos e dramáticos momentos, fatos que nunca se apagaram inteiramente de sua mente. Mas que havia deixado de lado para não reviver sofrimentos e tristezas .

O tom de sua narrativa é intimista e honesta em relação a todos os eventos e assuntos. Urtra refaz sua aliança com o tempo, com os elementos da natureza, aliados de seus poderes, mas acima de tudo, consigo própria. Dessa forma, munida de um saber intuitivo, determinação pessoal e seu inabalável senso de dever, passa a cumprir a sua missão.

O Culto do Lobo não é um livro simples ou com linguagem facilitada, na verdade tende a um refino da mesma e expressões pouco usais. Além disso, carrega-se de certo lirismo. "Lá fora no bosque, ouve-se um grasnar que se fez alto dentro da casa pela proximidade e silêncio, reverberando como sinos majestosos na nave central de uma igreja. Um pássaro faminto acabara de anunciar seu despertar noturno."

O livro tem um ritmo de narrativa mais lento em sua primeira parte, As Trevas, o que pode confundir o leitor desavisado como uma obra de pouca ação e centrado apenas nas relações das mulheres daquela irmandade. Por outro lado, desde o início há na narrativa rumores de um grande mistério na irmandade, mas que poucas conhecem, e que vai sendo restaurado justamente naquele momento, na sua maior crise, o iminente fim.

As mulheres da Irmandade da Loba, como as lendárias amazonas, não admitiam homens em sua comunidade. Eles eram mal vistos e banidos a todo custo. Até os enlaces amorosos se davam entre elas primordialmente, que é um dos temas dominantes nessa primeira parte e descrito com habilidade, apresentando um erotismo sem nenhuma ingenuidade.

O outro tema é justamente o mistério que vai num crescente até a culminância, e é de fato surpreendente, momento em que o livro dá uma guinada e ganha elementos de ficção-científica, revelando parte da origem da humanidade e uma ligação com a mítica Atlântida. Primordialmente, a irmandade têm compromisso com o sagrado da Deusa e com a magia natural, mas, deixa-se claro, que os poderes de algumas extrapolam a simples intuição ou visões místicas.

De qualquer maneira o livro está longe de ser algo fantástico ou fantasioso apenas. É também uma história sobre o feminino em suas dificuldades numa época extremamente opressora. Em contrapartida, tendo nelas a disposição guerreira e o caminho da união com a Deusa. Um contraponto evidente de um Deus masculino. E como símbolo de coragem, sua heroína principal, Urtra, é um farol ativo do que se fala hoje em dia do empoderamento feminino.

Por fim, O Culto do Lobo é um livro instigante, com força própria. A leitura nos leva para dentro da trama e mobiliza as emoções em torno do drama humano, do mistério e do fantástico, ainda mais se a leitura é noturna. Para os leitores que gostam do gênero, apreciam uma linguagem mais rebuscada, a obra da passagem de forma equilibrada a todas suas vocações. Fui realmente fisgada por essa leitura intensa.

Por Carmen Azevedo

Ensaísta, pedagoga e diretora teatral

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