Uma resenha - Quando Dormem as Feiticeiras

08/04/2017

Romance histórico cuja temática assinalada pelo autor procura resgatar e valorizar o contributo feminino no desenvolvimento da história ocidental. Ambientado no ano de 1491, mergulha nas profundezas da Inquisição com uma sutileza de imagens e com um refinamento na utilização da linguagem de época, bem dosada e rica em nuances estilísticas.

A trama bem arranjada pelo autor se desenvolve como uma estratégia natural, onde a protagonista procura cumprir metas bem definidas e procura também, alcançar objetivos práticos, principalmente quando o seu alvo se aproxima e é alcançado.

Então, para ela tudo se terá cumprido, sem deixar que os sentimentos e envolvimentos emocionais ou mesmo manifestações de aprisionamento físico e material interfiram nas etapas para se sucederem em sua trajetória de buscas e conquistas.

Trata-se, pois, de uma obra cuja didática introduz o leitor na seara da magia, utilizando uma linguagem literária refinada e acessível a qualquer leigo no assunto. Para quem já tem algum tipo de iniciação mística o discurso narrativo se mostra familiar e direto, é como se diz no popular: fala a mesma língua.

Um misto de suspense, de drama e tragédia faz com que o leitor se posicione como se estivesse diante de uma tela de cinema, onde não há interrupção entre uma cena e outra. Assim é a obra ficcional escrita por Carlos Costa (França).

Uma mistura de cinema fantástico e literatura medieval, que consegue prender o leitor e o conduz numa viagem histórica cujo cenário de perseguição ao potencial humano feminino é descrito através de um elenco de mulheres consideradas "anormais", por desenvolverem a capacidade sensitiva, tornando-se uma ameaça constante ao status quo da Igreja Católica.

A construção da personagem onipotente, onipresente e onisciente da Deusa, pode ser considerada como uma tática de desconstrução do modelo Ocidental judeu-cristão centrado na figura masculina, dominadora e centralizadora.

O autor procura estabelecer um ambiente mais harmonioso quando coloca o sacerdote ao lado da madre superiora, atribuindo-lhes uma árdua tarefa de fazer justiça a mulheres e crianças vitimas de uma situação de adversidade e de inquestionável confronto de autoridade.

O narrador, ou melhor, a narradora onisciente do romance Quando dormem as feiticeiras surpreende o leitor mais ingênuo ao construir uma cena peculiar em que evidencia uma capacidade muito sutil de descrição de um ato sexual nos seus mínimos detalhes externos e internos.

Não conformada com a descrição minucioso de uma relação homossexual feminina a narrativa introduz o elemento masculino com seu mais alto grau de virilidade sem causar qualquer tipo de estranhamento ao leitor. A relação sexual a três não anularia a presença espiritual de uma quarta pessoa, o conde, que no modelo tradicional católico deveria ser o único a desposar da sua condessa.

Outra cena comovente faz referência à pratica de necrofilia por parte de alguns soldados guardiões das celas onde se encontravam as mulheres acusados de feitiçaria. O submundo da Inquisição não passaria despercebido e o autor procurou descrevê-lo, colocando em altíssimo grau a sua laboriosa capacidade artística e o seu domínio técnico para transpor uma realidade crudelíssima de perseguição humana, que afligia e ainda aflige e inquieta no século XXI, através de uma simples leitura romanesca, onde fatos históricos são recriados e apresentados ao leitor com maestria argumentativa e sensibilidade artística.

Quando dormem as feiticeiras é um livro cujo perfil literário pode ser recomendado a historiadores, antropólogos, analistas, estudiosos e principalmente iniciados que desejam aprofundar-se no tema. Eu li, gostei e recomendo.

Quando dormem as Feiticeiras - Carlos Costa (França)
Editora Novo Século: abril, 2009

Marcos Santana
Arte-educador