VARANASI

14/03/2017

Varanasi

(obra fictícia)

Estava em Nova Déli, na Índia, a fim de concluir a pós-graduação em imunologia. Da janela do avião, antes de descer, pude ainda assistir a um espetáculo crepuscular, a luz se perpetuava teimosamente sobre a fímbria do horizonte, lançando sobre aquela parte do firmamento raios vermelho-ocres. Daquela pequena janela o mundo não tinha fronteiras e as poções de terra se estendiam preguiçosamente até onde as vistas alcançavam.

Contudo, sentia-me estranho e pensava: este sujeito que sou está estranho. Quando ao mesmo tempo refletia, mas quem é "esse" que consegue se pensar estranho, estando estranho ou não?

Na minha bagagem além dos livros técnicos havia um de poesia, um livro do grande poeta Fernando Pessoa. Na espera dos colegas que iriam me recepcionar, lia do livro o sugestivo poema:

Gato que brincas nas ruas / Como se fosse na cama / Invejo a sorte que tua / Porque nem sorte se chama / Bom servo das leis fatais / Que regem pedras e gentes / Que tens instintos gerais / E só sentes o que sentes/ É feliz porque és assim/ O nada que tudo és teu / Vejo-me e não estou em mim/ conheço-me e não sou eu.

Permaneci atento aos meus sentimentos e cheguei a desafiar o próprio Descartes em seu "cogito, ergo sun" (penso, logo existo), talvez fosse muito mais apropriado, concluía: sinto, logo existo. Embora nas ciências ditas pesadas a subjetividade é um pecado, e um pecado maior! Levado a termo o psiquismo um mero fenômeno dos movimentos nervosos.

Enquanto isso os meus colegas: um residente brasileiro, de nome Leucas e dois Indianos, com os nomes Asran e Rioddan, haviam chegado no aeroporto. Conversamos muito sobre a incrível cultura daquele país.

Mais tarde, no centro de pesquisa, falamos sobre o trabalho a fazer. Um vírus recém descoberto HTLV1 mostrava características parecidas com o HIV, o vírus da AIDS, embora o HTLV1 tivesse necessariamente um tropismo (uma preferência) pelo sistema nervoso.

Então Rioddan, um dos indianos, passa a me explicar:

- No distrito de Varanasi, essas duas entidades virais parecem conviver sem se misturarem, dotados que são de uma condição biológica desconhecida. Não há um único indivíduo humano portador das duas enfermidades, embora já sejam doenças endêmicas nesta região."

- Alguma suspeita? - pergunto a ele com expectativa.

- Penso ter uma razão biológica essencial, mas que no momento nos escapa, deixando-nos, em verdade, embaraçados pela multiplicidade de fatores e a singularidade dos eventos - respondeu com credulidade duvidosa.

Asran, o outro indiano, que acompanhava atentamente, remexeu-se na cadeira com alguma inquietação e disse:

- Os vírus como nós todos sabemos são seres que estão no limite entre o que é vivo e o que é inerte e inanimado, são por definição seres intercelulares obrigatórios. A "vida" deles praticamente se resume a replicarem-se indefinidamente, extratos orgânicos somente com a autofinalidade de perpetuarem-se. Neste caso de Varanasi parecem ainda funcionar como espécies que se auto-regulam, dentro de um ecossistema restrito, ou seja, não competem como deveriam. Organismos que demonstram ter sua autonomia influenciada a partir do ambiente imediato, ou seja, uma interação com o meio externo, a fim de manter a homeostase interna. E é claro, uma avançada auto-organização capaz de sustentar o que conhecemos como vida.

- Sim, Asran! - Leucas o interrompe. - Mas por essa concepção de interação poderíamos até imaginar que a própria Terra é um organismo vivo. Já que hoje se sabe que ela de fato mantêm uma homeostase global. Para se ter uma idéia... a percentagem das bases nitrogenadas no solo, a salinação nos oceanos, os gases atmosféricos... e tantos outros dados relevantes são no mínimo intrigantes, pois ocorrendo a alteração de apenas 1% nesses elementos, poria toda a vida em risco.

Asran continua, enquanto Rioddan nos oferece um chá quente de aroma doce.

- De fato Leucas, tudo que é vivo parece obedecer a esses princípios, de auto-regulação e interação com o meio circundante, a própria terra o faz também a fim de manter sua homeostase, o que seria dela, por exemplo, sem as radiações exteriores e seu controle para vida. E mesmo para nós organismos com inteligência, como bem teorizou Piaget no desenvolvimento cognitivo, o fazemos por uma série de equilibrações com o meio, ou seja, adaptações sucessivas. Um esquema mental apreendido será suficiente até certo momento, quando for insuficiente forçará o indivíduo, na relação com o meio, a buscar um novo esquema. No âmbito cultural o meio também é importante, somos algo como produto e produtor da cultura que nos permeia, estamos sempre a produzindo e sendo retro-alimentada por ela.

Então complementei, ao terminar o chá, visivelmente com entusiasmo.

- Todo esse assunto me interessa muito, meus colegas. Contudo, quero colocar um novo problema, um tanto filosófico. Somos uma entidade orgânica sim! Possuímos uma evolução biológica comprovada, do Homo habilis, o australopiteco com sua capacidade celebral de 800 cm3, comparável a de um macaco,passamos pelo Homo erectus, o Pithecanthropus de java com 900 cm3; até o Homo sapiens neanderthalensis e próprio Homo sapiens sapiens com 1600 cm3. Demonstrando que existiu uma transformação profunda da consciência com o aumento da capacidade cerebral, orgânica mesmo. Outrossim, com esse desenvolvimento também algo inteiramente novo apareceu na história da vida, justamente aí se dão os primeiros indícios de pensamento mitológico e místico. E fico a me perguntar desse sujeito que somos hoje, inseridos numa cultura mais complexa, fluindo em espaços virtuais, mundo globalizado, possibilidades ainda desconhecidas, o que poderemos falar dele enquanto autonomia e consciência verdadeiras?

Leucas se adianta.

- Uma coisa posso acrescentar com tranqüilidade, de um ponto de vista mais filosófico e mesmo social, dentro especificamente da cultura ocidental. Esse sujeito como ser que se autodetermina, autônomo portador da liberdade e consciência foi sendo duramente criticado por várias correntes e inevitavelmente, por outro lado, vinculado com o tempo ao projeto da modernidade. É certo com Marx, Nietzsche e Freud a partir do séc. XIX, de livre consciência o homem passa a um ser determinado e inconsciente. A partir daí o que conta são as estruturas econômicas ou ainda outros agenciamentos de controle, ao mesmo tempo, por exemplo, o inconsciente ganha a parti da Psicanálise um papel preponderante nessa determinação. Acredito que a figura do sujeito realmente deixa de existir e passa a ser uma sujeição de um projeto de época.

Então verbalizo:

- Sem dúvidas! O sujeito parece andar na corda bamba esticada pela própria cultura, e esta corda é esticada para onde as vistas não alcançam, ao menos, tenho compreendido assim nossa sociedade. Mas, lhes pergunto, e essa subjetividade que torna cada um diferente e nos faz reconhecermos aqui e agora, no passado ou no que virá? Acrescentando ainda, para essa discussão, e a dimensão afetiva e existencial, por vezes excruciante, que tocamos ou talvez, na verdade, somos arrebatados por ela, nos deixando plenos de incertezas? O que nos coloca no mesmo ponto dessa primitiva humanidade ancestral que teve sua tomada de consciente e houve a percepção de nossa finitude enquanto indivíduos redutíveis a pó.

Asran acrescenta:

- De fato, caro colega, é muito difícil tal questão, uma vez que não podemos ultrapassá-la totalmente na ciência. Embora essa última procure está sempre na verdade, contudo, de forma alguma, é garantia da verdade. Diria ainda a você que somos inexoravelmente atravessados pela cultura e falamos por e com ela a todo o momento. Se tirarmos toda as coberturas, talvez aí, encontremos o sujeito, mas temo que nem isso possamos fazer eficientemente.

Conclui Leucas, após tossir três vezes:

- Por outro lado, nossa natureza oscila entre o tudo e o nada, o eu individual de cada um se acredita o centro do mundo, mas objetivamente não é nada diante do que é manifestado, do tempo e da eras.

Rioddan que estava muito quieto se levantou e, com algum arrojo, disse sem cerimônias.

- E porque não a arte, a poíesis para responder a tudo isso? É um conhecimento pelo intuitivo, e talvez saiba melhor dizer, nesse caso, do que o extrato da razão. Não podemos desprezar que a própria razão infere as limitações dela mesma. Não vamos apenas utilizar a indução e a dedução para conhecermos o mundo, andar sim, na trilha do empirismo, porém nos deixando abduzir pela experiência do inefável e do feérico.

Naquele exato momento, o Sol estava nascendo em tons fugidios da cor amarela, e vinha se firmando com intensidade das manhãs claras. Da sala do laboratório, no centro de pesquisa, uma janela mais alta deixava a luz passar imprevidentemente, marcando seu trajeto, projetando a exata abertura, na parede do outro lado da sala.

Miríades de poeira pairavam entre as sombras que ainda vigoravam e agora se mostravam indefesas a luz que viria. Numa estante mais alta onde guardara o livro do poeta, o feixe de luz imposto pela abertura da janela impregnou metade de sua capa, deixando a outra metade imersa em plúmbea escuridão.

Carlos França set/99