Vela de Espermacete - Ato Um, Cenas I e II

15/08/2017


Ato Um

Ambiente de marina e temáticas do mar. Local cercado de redes de pesca, âncora, arpão, bóias salva-vidas, quepes de marujos e outros possíveis móveis de navios. Na parte detrás, metade de uma arcada de costelas de uma baleia (material cênico).

CENA 1

ÉPOCA: Séc. XIX;

LUGAR DA CENA

Costa dos Estados Unidos e Mares do Sul

Um Velho Marinheiro, Coro

UM VELHO MARINHEIRO

É noite rasa e sem lua num cais qualquer do mundo. Existe uma luz difusa e fraca.

Ele se encontra no centro do palco.

Limpa um livro de capa dura, sentado num banquinho de madeira (este bastante rente ao chão). O pano que utiliza para a limpeza é branquíssimo.

Usa trajes surrados e está descalço com a sola dos pés enegrecida.

Atira o pano para longe (o pano pode ser destacado por alguma luz de palco) e passa a folhear o livro, detendo-se em alguma uma parte com grande interesse.

Uma vela está acesa dentro de uma lamparina (ou algo que imite uma luz de vela), estando quase no seu fim, encontra-se do lado direito do velho.

Existe nele uma calma crua, uma avidez refinada e um meio sorriso ambíguo, como que para intimar a morte.

Algo que lê o assusta, deixa cair o livro e solta um berro terrível de repente, encarando a platéia com grande severidade, mas isso se transforma numa expressão de benevolência. Para depois surgir um sorriso amplo e infatigável.

Sons de trovões e tempestades atravessam o cenário, as luzes aumentam e piscam como raios.

A luz volta à condição inicial.

Ele se levanta lenta e pesadamente, carregando a lamparina próxima ao rosto e sai com as luzes se apagando atrás dele. Anda agora taciturno, mas é possível ouvir os sons dos seus passos.

As luzes apagam. Ele sopra a vela já quase fora do palco, entrando nas coxias.

Silêncio.

CORO

Ouve-se um murmúrio vindo dos dois lados das coxias. E no meio desse murmúrio um nome por três vezes é pronunciado: Ismael.

Uma pausa, trovões, relâmpagos e depois os seguintes dizeres:

O homem é também filho do vento e do mar, destinado a grandes prodígios. Contudo, a sua dignidade pode ser inferior a do pó, pois até pela brisa mais leve da insensatez ou da ambição, a sua humanidade naufraga, declina.

Será Ismael testado no mar salgado?

Silêncio.

CENA 2

Ninfa, Coro, Oceano com os Tritões.

Entra Oceano com sua corte de Tritões em movimentos cadenciados, anda e pára, anda novamente e pára,

assemelhando às marés. Ele usa na cabeça uma coroa de estrela-do-mar. Como vestimenta, uma calça cinza e uma capa da mesma cor. A capa é suspensa no seu término pela comitiva de dois tritões. Os tritões usam também calças cinzas, sendo o tecido drapeado em volta de toda a calça, apresentando maior volume na pélvis e diminuindo em direção aos pés. Lembram um fauno no conjunto, embora o drapeamento da vestimenta está mais para algas. Seus rostos estão pintados de branco, com um círculo negro em cada têmpora. Nenhumas das três entidades usam camisas.

NINFA

A Ninfa parece emergir de Oceano, mas saindo das coxias ao fundo e passando por debaixo da capa. Usa um vestido longo em tom prata com enfeites brilhantes.

Sons dos oceanos e dos mares.

O som diminui e ela proclama:

"Abyssus abyssum invocat" (Abismo atrai abismo)

Esta é içada ao máximo por Oceano e seus tritões. Sua cabeça pende em posição de relaxamento em direção a platéia.

A seguir, levanta-se, ainda nos braços das entidades, e olha em volta de tudo com assombro.

Uma luz gira e muda as cores na orla e no fundo do palco.

E ela diz:

"A luz vocifera contra os olhos sedentos da noite um tenebroso conhecimento... ó mortais, quão detestáveis ou invejáveis podem ser! Não lamentes por vossas experiências e desafios, apenas por vossos absurdos."

O grupo segue para o lado oposto do palco pelo qual havia entrado, e deste para o fundo. A ninfa é abaixada e "submergida" nas coxias.

CORO

Oculto nas coxias

Gemidos e sussurros... (tom fechado)

Escuridão por todo palco. Trovoada.

NINFA

Ela retorna. Agora passeia seminua (usa apenas uma tanga cor da pele e uma corrente brilhante de prata em cada tornozelo, além de uma tiara também prateada. A luz foca um dos seios e o resto é penumbra mordaz. Por trás dela, surge o deus do mar e sua corte.

OCEANO

Oceano empunhando um escudo redondo e convexo, signo do poder e da universalidade. Seu rosto está altivo e inviolável.

Ele pára no centro do palco e parece comandar as forças titânicas da natureza com gestos alternados das mãos e dos braços.

Ordena a entrada dos Tritões e chama a Ninfa para revernciá-lo.

TRITÕES

Um dos tritões traz uma grossa corrente e outro um baú, ambos arrastando os objetos por meio de cordas. Símbolos respectivamente dos perigos do mar e de suas riquezas.

Eles param, guardando certa distância de Oceano e fazendo deferências profundas, a ponto de tocarem as testas no chão próximos aos pés do deus. Após isso, voltam de costas para suas posições iniciais, uma vez que não se pode dar às costas a um deus.

NINFA

A Ninfa faz reverência com menos rigor, embora incline todo o corpo para o deus do mar e para os objetos. Vira-se para a platéia e grita:

"Mortais! Mortais! A sombra é vossa carne... nada mais!"

Ela sai de costas, tendo seu olhar vinculado ao do deus Oceano.

CORO

Anda oculto pelos corredores da platéia empunhando velas acesas. Estão de preto.

Sobem no palco.

Gemidos... (tom aberto)

Saem.

OS TRITÕES

Saem arrastando os objetos com lentidão, seguindo o Coro para as coxias.

OCEANO

Continua no centro do palco e a tudo observa com expressão terrível.

"Tarde venientibus, ossa" (Ossos para os que chegam tarde).

Som do mar contra as pedras se faz ouvir.

Ele sai.

CORO

O Coro entra em uníssono proferindo:

"Os homens falam de uma lenda antiga. É sobre um leviatã, um monstro marinho de grandes proporções. Um monstro que traz para todos que cruzam o seu caminho a desventura ou desastre, a desgraça ou a destruição. Ainda assim, atrai aventureiros e desavisados.

Ai de nós! Quem poria tal desafio em seu destino? Que homem teria em seu coração uma coragem como essa?

A boca seca, os dentes trinam e a palavra sufoca só pelo fato de mencionar a tal criatura. De toda sorte, falem se souberem desse incrível homem com essa aptidão. Talvez seja digno de admiração, de fascínio. Não o sabemos."

O Coro aponta para plateia.

"É sabido que a maioria teme o monstro como ao inferno. Contudo vejam, não é uma criatura sombria, escura ou cinzenta. Não, não, esqueçam isso se assim o escutaram. Existem diversos relatos e valiosos testemunhos. E tudo é de se espantar.

Devemos duvidar de muitas histórias, sabemos. Os homens não são nada confiáveis. Isto dizem de si próprios. Ah, ainda mais de pescadores e suas histórias.

Entretanto, sobre a criatura contam que ela é branca, cobrindo grande extensão no mar. Um clarão terrível por vezes, que ofusca o dia. Uma medonha mancha branca a noite. Ai de nós!

Atualmente o que se diz é que todos a evitam, menos um homen. Será esse homen incomun ou a sua soberba maior?

Não o sabemos!"

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