A Solidão, Uma Esfinge

19/10/2018

Decifra-me ou te devoro!

A pessoa com solidão sente um vazio constante, carência e se percebe isolada, abandonada ou sem vínculos afetivos verdadeiros. A conhecida condição ou percepção de estar sozinha na vida, no mundo. Sente tristeza mesmo quando acompanhada de pessoas. O sentir-se só.

A solidão pode ter um impacto profundo na psique humana, embora nem sempre de forma negativa como se imagina. A depender ela interfere no cotidiano do indivíduo e no bem-estar geral, afetando a saúde. Pode surgir como um sintoma da depressão, ali subjacente, por um quadro profundo de tristeza e isolamento.

Somente o medo da solidão é bastante comum em nossa época. Estudos apontam que cada vez mais pessoas se sentem solitárias e sofrem com isso, seja pela vida moderna, a cultura do individualismo, o estresse ou a falta de tempo das pessoas para as relações. Embora possam saber que existe algo de errado acontecendo, elas não conseguem encontrar uma saída. Vão moldando ao longo do tempo uma adaptação precária e sofrível, que tende a se agravar.

De outro lado, a solidão pode ser uma vivência normal, necessária e construtiva. Nesse casos, é feita uma escolha pela solidão, para se afastar de tudo e de todos e ir ao encontro de si mesmo. Um tempo que é dado para ressignificar a vida, o momento atual, acontecimentos definitivos e etc. Sendo na maioria das vezes algo saudável e benéfico, gerando mudanças e amadurecimento.

Mas outras vezes, pelo contrário. A solidão se dá pelos revezes da vida, acontecimentos limitadores ou por questões internas e dificuldades pessoais significativas, que podem ter sua origem na infância. O indivíduo não quer aquilo, foi lhe imposto, acarretando um sofrimento agudo e que parece não ter solução. O que é o caso para um suporte terapêutico, um cuidado especializado.

Sem dúvida, a psicoterapia é um excelente instrumento de ajuda e resolução nesse processo. Não é raro se descobrir facetas em nós que agiam na sombra, impedindo nosso avanço na vida e nas relações. Processo este que pode ter começado lá atrás na infância, quando somos mais vulneráveis. De todo jeito, é sempre bom nos questionarmos, até que ponto evitamos encontros com nosso íntimo? Coisa que a solidão consegue promover tão bem.

Em termos mais profundo da psique humana há uma jornada mítica a ser cumprida, e que não pode ser negada ou negligenciada, protagonizada pelos desafios da vida. Ou seja, todos os indivíduos passam por desafios fundamentais na interação com o mundo, base do crescimento humano, sendo um percurso solitário e intransferível.

Sem mencionar, o que é demasiadamente humano, justamente o enfrentamento do inconsciente. Que sempre oferece algum perigo e redenção, pois se distancia da esfera conhecida da consciência rumo ao grande desconhecido, mas com a possibilidade de trazer riquezas internas para a vida.

Nesse sentido, o psicólogo e teórico Carl Gustav Jung vai dizer, "Toda convicção da minha vida agora repousa na crença de que a solidão, longe de ser um fenômeno raro e curioso, é o fato central e inevitável da existência humana". Percebam, isso desemboca numa corrente fundamental do pensamento e do questionamento existencial, nascemos sós, vivemos em nós mesmos, caminhámos sós e morremos sós. Temos aqui, no mínimo uma afirmação existencial contundente.

E por que isso se dá? Simplesmente porque ninguém pode viver nossa experiência no mundo ou a que acontece e é vivenciado dentro da gente. Há uma singularidade intransferível do ser, protegida e reservada, que dita, ao mesmo tempo, uma beleza e uma dor (como até já mencionou o poeta), fazendo de cada ser uma experiência única no mundo. Uma riqueza particular.

Mas isso, claro, tem um preço. Que é justamente estar isolado, ser separado do resto todo, uma unidade, ainda que vocacionados a interação constante. E nessa relação com o mundo, com o outro, conosco ainda surge a responsabilidade imorredoura e inalienável de dar conta de todas as questões surgidas ou emergidas na esfera total do ser. Uma totalidade só nossa, mas ainda assim, separada. "Nenhuma homem é uma ilha" diz o pensador, contudo, diria, todo homem é um deserto que precisa ser atravessado para que se possa crescer.

Podemos ter uma ajuda terapêutica, podemos ter amigos, familiares, um país inteiro como companheiros de jornada, porém ninguém poderá dar nossos passos. Dessa forma, a experiência em si da solidão deve ser considerada um caminho legítimo a ser vivenciado como território de significados, ou seja, não ser negada simplesmente, mas descobrir o que está por trás de tal processo ou onde nos leva? Do contrário, significaria fechar uma porta para o crescimento pessoal, superação e mudanças imprescindíveis.

Quando passamos por sofrimento físico ou emocional extremado, todo o conforto se mostrará insuficiente em algum momento. Nosso mundo passa a ser questionado, e ele desaba muitas vezes sobre nossos pés. E ficamos pensando como ele ficou de pé durante tanto tempo, com bases tão frágeis. Então descobrimos, fomos nós que os sustentamos com ilusões. E um tipo de esperança que só teria esse nome no inferno. E por que fizemos isso? Não há outra resposta melhor, carência, somos carentes.

Sem premeditarmos, nossas referências se perdem, ficamos confusos e mergulhamos numa escuridão que não dá descanso. Não sabemos o tamanho dela e quanto tempo vai permanecer nos engolindo. E por isso, tememos por onde caminhar, até porque já nos ferimos ou estamos feridos e podem haver outros perigos que desconhecemos. Favoravelmente, em termos mitológicos, embora toda jornada de crescimento ofereça perigo, é ela que leva a redenção e a superação no final.

No mundo grego, a descida ao Hades era chamada de catábase. O Hades era uma espécie de inferno para os gregos antigos e uma das piores provas para um herói . O interessante aqui que além dos símbolos de perda e morte, havia também o da riqueza. Assim, quando era preciso descer as profundezas dele, simbolicamente, as profundezas do ser, havia também essa promessa de se recuperar riquezas perdidas. Um novo potencial de vida.

Então algo acontece, a caverna que nos aventuramos, ou a descida aos reinos mais sombrios, é o caminho que nos conduz a nossa essência e também a subida, ao retorno. Pois naquele trilhar pelo lodo do sofrimento, que começa a se desfazer; e pelos espinhos de nossa rigidez, que começam a se quebrar, vai existindo um aumento de clareza e consciência. Só somos nós agora para enfrentamos o pior, mas ali pelo menos podemos descobrir como lidar com tudo aquilo. Num processo terapêutico não somos exatamente guiados, mais instados a nos questionar, a sermos sem esconderijos, a ajudar a nós mesmos, a nos desvendar.

O segredo é saber e aprender a lidar com o que é insuportável em nossa história, enfrentar aquilo que foi mais sofrível, a fim de tratar efetivamente a ferida original. Que nesse caso, pode ser uma dor por uma separação, por abandono, por uma rejeição, por uma menos valia pelo desafeto ou outras que sequer poderíamos imaginar ter alguma relação.

Uma vez escrevi,

"Move-se a providência pelos estreitos recantos do ego quando se firma um pacto pela elegância da verdade de quem nós somos. Tudo mais é indigesto a luz. Do contrário, sente-se a presença de uma ausência, uma solidão que só é bela na dor, ferindo a vida, refratária ao mármore humano e inerte ao majestoso sol do mundo, quando tudo poderia vir pela audácia do ser. Normalmente, uma barreira se forma em meio à aridez do assombro e da insegurança, e nada mais é construído pelo indivíduo. Aceitar os riscos e o desejo legítimo é fluir no sentido da obra pessoal e incondicional a se completar. Clarões serão vistos para além do deserto da mente e do sentimento doente. Com o primeiro passo dado na direção de quem realmente somos, veremos logo a lua brilhar contra aquela escuridão temida, pois estamos sós com o todo íntimo, quase próximos ao eixo imóvel da totalidade. E o nosso olhar será então o grande fenômeno. Mas a terra crua testará nossos talentos e nossa determinação. Move-se a providência pela abertura, pelo despertar, pela suficiência e não pela urgência."

Carlos França