Coronavírus: A Natureza do Vírus e a Humana

30/03/2020


Não ia escrever. Até porque o Coronavírus já está bem apresentado em seus vários aspectos. Mas aí veio esses dias dificílimos e inusitados para todos, que resultou na quarentena. No meu caso, a meia quarentena, pois estou trabalhando. Área de saúde, sabem como é. De toda sorte, como escritor nunca paro. Não mesmo. E num certo momento, observando os corredores estreitos, sólidos, áridos e solitários da quarentena (mas que podem ser muitos solidários afinal), logo consegui, com um pouco de calma e disciplina, enxergar mais ao longe, caminhos pavimentados e arborizados que conduziam a uma montanha de paisagens acolhedoras e ares promissores. Aquilo só podia significar alguma espécie de aventura. Assim, do que me foi possível escalar, comecei a vislumbrar um texto sobre o assunto. Uma palavra a ser dada. Por que não? Isto depois de umas visitinhas literárias e filosóficas em companhias de agradáveis mestres, Tobias Barreto, Freud e Nietzsche para citar os mais camaradas. Eis aí uma coisa boa da quarentena, encontrar velhos amigos no universo imperecível e silencioso dos livros. E isso rendeu frutos. Já que o primeiro me convenceu a escrever o texto. O segundo me chamou a atenção para certo viés interpretativo da realidade e para um gesto catártico suave. O terceiro asseverou-me que a casuística da vontade é um rude torneio nas arenas do ser. E mais, que desta luta, quando saímos vencedor é sempre a vontade de poder.

E por que diabos a intervenção de tudo isso? Em primeiro lugar, confesso que fui acometido de certa preguiça contextual e algum litígio com a necessidade de tal tarefa. E não era tudo o que ocorria. Existia ainda um receio de ordem formal, já que o texto, como ia prevendo, numa espécie de oráculo interno, pelas ideias que iam surgindo e transgredindo a si próprias, seria relativamente grande. O que não é incomum no meu caso. Acabo sempre caindo nessa vala, afinal sou um escritor de romances. Acostumado a longas narrativas. Decidi que falaria apenas o essencial. O problema era as diversas vivências e percepções desse entorno e seria demasiadamente difícil um relato "anorexo" cumprir a função almejada. Na verdade, o plano seria, num quadro que queríamos pintar com letras e palavras recatadas, desvelar uma realidade, uma certa verdade, a aletheia, como diziam os gregos antigos. No entanto, algo seria sempre mutilado ou sofreria certo desvio. Ao menos, tinha o conforto que se poderia promover uma aliança com questionamentos importantes.

Mas vamos lá, nessa empreitada. Nesses últimos dias, indo para o trabalho, um Posto de Saúde, fui testemunha de vários acontecimentos singulares, mas me restringirei a um ou dois. O primeiro deles é justamente com relação aos profissionais de saúde ali no front dessa batalha, todos paramentados e dispostos para além das perspectivas alarmantes desse momento. Era impossível não pensar e refletir sobre o que ocorria em todo o mundo e, mesmo, sentir um orgulho por aquelas pessoas ali. Companheiros e companheiras de tantas jornadas. E a agora o fazer parte de algo maior. Um forte abraço espiritual! E indiferentemente para onde escolhesse olhar, entre aquelas indomesticáveis instalações e corredores labirínticos do posto, para os colegas em suas funções e tarefas, se me apresentava um signo de diligência e sacrifícios de tantos. Tanto ali como espalhados pelo mundo naquela atividade de saúde, lutando contra o patógeno, a ignorância, os desgovernos, as desconsiderações institucionais, a falta de recursos, a irresponsabilidade política de muitos e etc. Muitos desses profissionais fazendo escolhas difíceis, cumprindo o dever com obstinação, bem como, auto sacrifícios, enfim, tantas histórias que iam surgindo por esse vasto planeta. E de fato, muitos desses profissionais de saúde chegaram a perder a própria vida. A coisa é séria. Talvez, nos caiba aqui, um minuto de silêncio... Pensemos em toda humanidade, na comunidade, no grupo, nesses profissionais, em nossos familiares. Nos atentemos para o que é necessário, para o que se dever fazer, não para o que se quer fazer. Não é hora!

Os primeiros rumores eram de uma gripe. Gripe? Ainda me questiono. Não seria melhor dizer pneumonia, que pode ter um curso clínico apenas dos sintomas da gripe? De toda sorte é algo grave. A quarentena se estabeleceu como um indicativo da OMS em função da velocidade de contaminação viral e os graves efeitos no sistema de atenção médico-hospitalar, ou seja, o vírus tem o condão de colapsar o sistema de saúde de qualquer país ou estado. E isso é uma premissa simples, mas que se revelou de difícil entendimento para alguns, numa contabilidade que afetaria a todos os outros enfermos que necessitassem de um leito, uma UTI ou respiradouros. Como não bastasse, no decorrer dos acontecimentos, o "Corona" ocupou o lugar de um serial killer de idosos, cardiopatas, diabéticos, imunodeprimidos e outros. E essa imagem passou a ocupar a maior parte das lendas urbanas. Quando se sabe que não é letal somente para este grupo de maior risco. E agora, novamente uma lembrança terrível, muitos profissionais de saúde pelo mundo tem sucumbido na luta contra o vírus. São uns heróis mesmo!

Dito isso, percorrerei um pouco nestas linhas escritas também caminhos um tanto mais ensolarados. Deixe-me apresentar, Sancho, uma espécie de zelador geral, que foi fundamental em certo episódio, "mundialmente" conhecido no posto, apenas como o episódio do Rato. Ele finalmente passou a usar máscara e se impunha como um rigoroso exemplo e um estandarte contra a miséria viral. Num tom mais literário, parecia aqueles personagens retirado de dentro de uma poesia concreta, 'onde pedra sempre fora e é, porém agora misturado a água'. E somava-se uma outra força, as das minhas colegas, como guerreiras audazes, que apelidei de Valquírias (filhas de Odin e Erda, divindade da terra). As Valquírias que recolhiam os heróis dos campos de batalhas para o Valhalla, espécie de paraíso dos seres dignos e honrados. Nessa altura, já havia o protocolo e as medidas oficiais, paralelo ao que ia sendo reportado pelos meios de comunicação com os preocupantes índices de contaminação e letalidade, sobretudo na Itália. As notícias pululavam como milho de pipoca em óleo fervente, o vírus Covid-19 ou Sars-Cov-2 se espalhou insidiosamente e fez do mundo um refém esperneante, economicamente claudicante e unindo a todos no afastamento social. Ou quase. De quebra, o vírus conseguiu se estabelecer como uma nova peste mundial, em meio a essa Sociedade Líquida.

A quarenta veio como uma névoa gélida e abrupta sobre o ânimo de todos. Além disso, apavorando governos, agentes políticos, gestores públicos, empresários e trabalhadores. Todos, absolutamente todos. Não é de se espantar, pois uma sombra horrenda começou a pairar sobre economia mundial. A escassez de recursos, o desemprego, a fome, entre outros mazelas pareciam ter iniciado sua marcha peçonhenta. E os mais pessimistas ainda anunciavam um colapso geral, quase apocalíptico do setor. O catastrofismo é uma eterna debutante me parece. Embora esse pessimismo seja uma meia verdade. É necessário e, mesmo obrigatório, se unir a totalidade da humanidade para uma solução. É um chamado, uma postura e uma conduta a se tomar. É o todo que nos convoca. No fundo, é um esforço de guerra planetário, não contra uma raça alienígena beligerante, mas contra um vírus mutante e insidioso, contra a ignorância, a mesquinharia e mazelas humanas. Certamente ainda, falta a virtude da paciência, da confiança e da fé, seja no que for. E sem dúvida, já é algo histórico e sem precedentes.

As epidemias e pragas sempre ocorreram ao longo dos séculos (lembro-me aqui do historiador, muito aclamado academicamente, Fernand Braudel, que já falava sobre os ciclos e a história das doenças), muitas vezes, com resultados catastróficos. Os aparatos tecnológicos e organização do mundo eram muito diferentes, sobretudo quanto mais se volta no tempo. Agora temos essa responsabilidade em nossas mãos em fazer melhor dessa vez. E provavelmente isso também seja literal, para cada um individualmente, no ato simples de lavarmos bem as mãos e mantermos o distanciamento social. E não podemos voltar aos tempos do médico sanitarista Osvaldo Cruz, no início do século XX, onde medidas sanitárias e a vacinação obrigatória resultou na Revolta da Vacina e em grandes prejuízos no Rio de Janeiro. Infelizmente parece que a consciência de muitos indivíduos ainda vaga por paisagens pantanosas ou se atraem para certos passos próximo ao abismo, acreditando que trafegam por amplas vias pavimentadas. Em tempo algum, foi relatado tanto avistamento de entidades como a loucura, a maldade, a ganância, a ignorância e a burrice todas de mãos dadas próximas ao precipício.

Além disso, um número indefinido de formadores de opinião disparam palavras de zelo duvido, quando o que está em questão é a vida, e a vida de pessoas que amamos. A proteção delas e das pessoas menos favorecidas. Claro, vivemos numa Sociedade da Informação. E quantas informações, minha gente! De todos os tipos, origens e interesses. Sem mencionar, os palcos em que assistimos o desespero atuar de todos os modos. Ou então, personagens com sombrias feições, mordendo os próprios lábios por um ódio latente, dançante ou manifesto, como se bebessem um mel cauterizado e espumante de enxofre e isso fosse bom, lindo e maravilhoso. Ou ainda, risonhos espantalhos manipulando instrumentos da negligência e do completo desinteresse pelos outros! Sem mencionar, atitudes as mais estapafúrdias do convívio e decoro social, que se menciono aqui transformo esse texto numa página policial. É líquido e certo, como se diz no direito, o vírus é maior em sua afetação patológica também devido ao fator humano, virulento de muitos modos.

Sabemos que tudo começou lá na China por um hábito alimentar, no mínimo, muito estranho para nós ocidentais. Ensopado de morcego. Por mais que também nos alimentemos de outros bichos, como frango por exemplo, uma tal disposição alimentar e o modo de seu preparo nunca nem mesmo teve uma pré-estreia em qualquer cozinha brasileira. As cenas do bicho boiando inteiro na tigela num caldo enegrecido parecia trazer uma mensagem minimamente sombria. De outro lado, o sinal de Batman nos céus da fictícia "Gothan City" nunca me pareceu tão auspicioso, porque traz um signo, um símbolo de que tudo pode ser transformado. Treva em luz. Mas o que nos chama atenção aqui nessa parte, é a transgressão em relação a Natureza, ainda que se pese aqui outros tipos de natureza. Inclusive, a sanitária. O modo de vida sustentável não é só uma ideologia, mas diz da limitação dos recursos naturais e da herança que deixaremos para gerações futuras. Fala de uma responsabilidade maior. E uma responsabilidade intransferível. Costumo dizer que, "Deus perdoa sempre, os homens às vezes, a natureza nunca". Nunca perdoa. E aqui devemos olhar para cultura milenar chinesa com certo entendimento, mas isso não quer dizer aceitação. Longe disso. Algo tem que se mudado. E há dentro da própria cultura chinesa vozes que questionam essas práticas. Talvez, nesse instante, pudéssemos nos perguntar, qual é o ensopado de morcego que temos preparado? No mais, vivemos um tempo que uma parte pode afetar drasticamente o todo. Pois tudo está interligado. Isso terá que ser melhor pensado. O que não cabe é atacar os chineses como párias do mundo. Afinal todas as culturas tem suas mazelas e promessas.

Não é um tempo fácil para ninguém, sejam os governantes em suas decisões ou de seus órgãos competentes. Sejam para o campo econômico e seus agentes. Nesse cenário, muitos valores têm sido questionados e isso é positivo. Toda crise nos leva a novos patamares de reflexão e mudanças. Embora algumas mazelas da cultura e da sociedade, ou talvez, simplesmente do humano, vicejam insistentemente nos terrenos da oportunidade e nos descalabros. E nesse ponto, farei um pequeno recorte, o da reação das pessoas. Vejam, quando se começou a falar da Cloroquina e a Hidroxicloroquina, independentemente de sua eficácia e terapêutica (que segue sendo testada), de Fake News por cima de Fake News, produziu uma corrida desesperada, imprudente, estúpida e insana às farmácias pela medicação. O que fez com o que o governo coibisse a prática da livre compra do medicamento. Será que sempre, como poderia dizer Caetano Veloso, teremos que a apostar na "deseducação de alguém"? E em que nível? Semanas atrás, o próprio Ministério da Saúde, desconsiderou, até mesmo de forma indelicada, a declaração do médico e cientista brasileiro, Dr. Cícero Galli Coimbra, do Protocolo Coimbra, onde ele apontava a vitamina D, o colecalciferol, como uma importante substância no fortalecimento do sistema imunitário e, portanto, na prevenção dos efeitos do Covid-19. Não a cura. E hoje o que vemos? Pesquisas pelo mundo apontando justamente isso. Dr. Cícero realiza um excelente trabalho, revolucionário diria, mudando a realidade de inúmeros doentes autoimunes, tendo como base o uso da Vitamina D. É preciso valorizar a prata da casa. E que prata! Em verdade, o cientista é um ouro no Brasil.

Para finalizar este escrito, vou tomar de empréstimo uma imagem literária do livro, Assim Falou Zaratrusta, de Nietzsche, que li há mil anos por assim dizer. A imagem é a seguinte, Zaratrusta, o personagem principal da narrativa se encontra em meio a corajosos pescadores e começa a contar-lhes um acontecimento de sua vida. Quando numa certa noite, ele caminhando pelo campo viu um pastor em agonia. E foi ao encontro do mesmo para ver o que estava acontecendo, e, talvez ajudar. Não conseguiu. A cena que viu foi assustadora. Lá constatou que uma serpente se enrolou no pescoço do homem e ia entrando por sua boca, sufocando-o violentamente (asfixiando o pobre como uma pneumonia grave). Então Zaratrusta grita para o pastor, "morda, morda". Dessa forma, o pastor rompeu a cabeça da cobra e a cuspiu para longe, libertando-se da áspide tenebrosa. O homem salta de sua posição em agonia e começa a rir em meio a sua nova condição. Um riso como de nenhum outro homem. Nesse momento, em Assim Falou Zaratrusta se prenuncia o super-homem ou o além-homem, o Übermensch . Nietzsche é claro, traz essa figura em um simbolismo próprio e em defesa de sua filosofia trágica. Na verdade, um contrapondo ao niilismo. Do meu lado de cá, há um descaminho virtuoso dessa imagem (que Nietzsche me perdoe), ressignifico ela para o momento, para situações assemelhadas, pois a estendo ao homem comum, a humanidade quando se liberta de um perigo, de um miasma, de uma aflição, de um entrave, das próprias mazelas. Quando supera e evoluiu. Pois assim o é, assim acontece quando aprendemos com as dificuldades e superamos. E um novo ciclo se inicia com novos desafios. De outro lado, é Édipo diante da esfinge devoradora e destruidora, que usa sua inteligência para resolver o enigma, mas que precisa ainda olhar para dentro e finalmente ser reconhecido pelos deuses como um herói, ou seja, necessitamos dos valores superiores do homem para crescermos e evoluirmos em humanidade. Por isso, Édipo é testado. E como ele é homem, indivíduo. E todos nós somos. Da mesma forma seremos testados.

Carlos França

Escritor e Psicólogo