FUTEBOL, UMA SELFIE

21/06/2018


           

FUTEBOL, UMA SELFIE

O campo de futebol não é uma simples arena, mas um lugar de experiências, promessas, limites, superação e redenção. Tudo sob o comando de uma única bola, e diga-se de passagem, esta mais redonda do que o próprio mundo. Ali no solo mais verde e plano, e na imensidão das estruturas de um estádio de futebol, como um templo de devoção sagrada, vemos as manifestações desse esporte como estratégia e talento, força e valor, arte e espetáculo. Não é por acaso, portanto, a capacidade de mover paixões individuais e coletivas.

O futebol pode ser analisado sob diversos pontos de vista, desde a apropriação política e ferramenta ideológica, entretenimento, historicidade, profissionalismo e economia, fenômeno de massa e etc., porém independente de qualquer coisa, quando os dois times entram em campo, lutando para ter aquele mundo a seus pés, é algo vivo, vibrante de emoção e tradição que se manifesta no real e na dimensão simbólica.

Talvez mesmo não seja um simples mundo a tal bola, mas um sol, uma estrela nova, capaz de colocar muita coisa em sua órbita. Já que ela é atrativa sem possuir gravidade, iluminada sem possuir luz e aquece o coração de muitos sem ter calor.

O fato é que o futebol é um dos mais relevantes esportes do mundo, quase uma "religião leiga", aponta alguns. Embora isso também nos lembre o lado sombrio, quando o amor ao esporte é submergido às paixões mais baixas. E o espetáculo, o talento e a disciplina são vencidos pela intolerância, pelo preconceito e pelo vandalismo.

De um certo modo, quando olhamos para as equipes, vemos as representações de guerreiros, a representação da luta da própria vida. Claro, isso é comum a todos os esportes. E nesse cenário é testado o homem, o grupo e seu comandante. No caso do futebol, há uma tríade básica de jogadores, que são os zagueiros, mais o goleiro; meios-campistas e os atacantes. Os gregos antigos certamente diriam se tratar de uma luta uma entre titãs de três cabeças, e como uma representação do início de tudo.

No sentido psíquico, o esporte tem um valor catártico e restaurador, ou seja, estabelece um relaxamento após certa tensão relativa, porém capaz de promover uma sensação agradável e um sentido de pertencimento a um grupo, que lhe traz força e sentido na vida. Também faz esse papel de suavizar a rotina do dia-a-dia ou de obrigações enfadonhas e cansativas.

No Brasil, a popularidade do futebol tem raízes robustas, fazendo parte até mesmo da identidade do povo brasileiro. Parece não haver dúvidas, esse é mesmo o país do futebol, com seus méritos e tradição. Quando se viaja para o exterior sentimos isso na pele, são referências marcantes. E em nosso país essa identificação se fez tão forte que parecia uma espécie de monocultura de um esporte, herança talvez de como acontecia com as monoculturas agrícolas do Brasil colônia.

De outro lado, justificava-se esse talento para o futebol o fato do brasileiro ser mais instintivo, com certa malandragem e  até uma aptidão mística. Tanto que os pés, menos nobres do que as mãos, funcionaram bem aqui. Como a menos valia nos persegue isso tem um peso negativo, modulado pela cultura popular como algo real. O engraçado é que nunca se pensou ou se questinou, "se essa gente faz esse milagre todo com os pés, imaginem com as mãos!".

A verdade que a prática do futebol é muito simples e fácil, uma bola de qualquer tipo ou improvisada, um terreno baldio e pronto, temos uma "pelada" que pode ser muito revigorante e satisfatória. Inclusive, temos exemplos que dessas "peladas" vieram grandes jogadores. Inclusive, por onde o futebol ganhou mais um signo, o da ascensão social. Mas devemos ter consciência que a maioria absoluta dos jogados profissionais ganham muito pouco, e, por vezes, mesmo os mais talentosos não chegam ao ápice.

De qualquer sorte, a paixão e o valor por esse esporte não é só nossa. A Europa está aí para provar isso com muitos méritos e talentos. Mesmo assim, dentro do peito da gente brasileira parece ainda bater um coração que tem uma bola dentro, e esta é feita com fios de ouro, tendo a força de trovões quando bate.

O que não pode acontecer é nos perdemos em nossa própria lenda ou vivermos de história, pois o tempo ergue-se contra tudo. É necessário evoluir, por vezes, se reinventar. O Brasil é carente de valores mais elevados, onde o esporte pode ajudar. Há muito por ser feito por aqui. Por isso, um talento dentro de campo é fenomenal, mas fora e dentro de campo é algo que toca o sublime, pois se torna um exemplo substancial e renovador para um povo, para uma cultura.

Carlos Costa França