O Desafio Casamento

22/07/2018

É bastante óbvio que alguém que esteja se casando, raramente pense em separação, ou mesmo, que a vida a dois trará tantos problemas que tudo dará errado. O sentimento é completamente outro para a ocasião. Por si só, o enlace matrimonial promove uma energia considerável de esperança, renovação e realização. Além disso, um projeto de vida em comum traz em seu rastro uma alinça com o futuro e a promessa de dias melhores.

Já a separação é uma experiência próxima ao abismo, a sensação é de queda, de desastre completo, é de ficar sem chão. Não é um processo fácil e o sabor é um dos mais amargos da vida emocional nas relações humanas, que vai do sentimento de fracaso, indiferença ao ódio.

É fato, toda separação traz dor, mas pode significar no correr de certas relações e, sobretudo, de relações doentias o único caminho, a úinca salvação. Sem mencionar, que a separação pode resultar em crescimento e libertação de uma vasta cadeia de insatisfações e infelicidade.

O divórcio acontece com tanta frequência que merece uma atenção maior ao tema, até porque ninguém está livre de vivenciar um processo como esse. Não escolhe a fase de uma relação, filhos, situações complicadas, mesmo diante de obstáculos materiais, sociais, psicológicos ou espirituais. A separação é um acontecimento que tem profundas implicações na vida de qualquer indivíduo.

Assim, um olhar imparcial de um lado e audacioso por outro pode nos ajudar a ter uma melhor compreensção das relações românticas de um modo geral e de como podem ser tão frágeis por vezes. E, dessa forma, estabelecer uma visão mais clara e madura, tanto quando acabamos de assumir um casamento, bem como em meio a uma crise ou até mesmo quando chega a um fim.

O casamento é uma construção no tempo que pode se iniciar com os blocos feitos do amor ou da paixão que atraiu todas as coisas para essa culminância. Um certo professor de psicologia, dos tempos da faculdade, dizia: "não existe" sociedade mais complexa do que sociedade a dois". E isso parece ser uma verdade se entendermos que um relacionamento possui várias dimensões, e cada uma delas necessita de atenção devida e dedicação a manutenção daquilo. O que nos resta é o esforço de fazer acontecer o que idealizamos para esse setor da vida, ainda que tomemos como inspiração a vocação do amor romântico.

Na mesma direção, entendermos de vez a importância do nosso investimento e da nossa disposição para aquilo que escolhemos, afinal fizermos nossa escolha. Precisamos trabalhar por ela agora e durante todo o percurso. Isso é essencial para que as coisas andem bem, e mesmo, cheguem a nos surpreender. Aqui atingimos algo muito importante no quesito casamento, o cuidado. Ou seja, um casamento implica necessariamente num tripé de atenção, o cuidado conosco, com o outro e com a relação.

Podemos deduzir que todos os anseios e expectativas do ínicio são colocados a serviço de um "final feliz" e de uma vida partilhada que dará conta de tudo que for surgindo por aquele caminho. Dessa maneira, as dificulfades da vida, defeitos e falhas de cada um, incompatibilidades, questões com os familiares, questãoes materiais e etc são combatidos numa batalha épica de meter inveja ao cinema. Claro, não é ruim, é uma força que deve estar presente e atuante nesse momento, faz parte do início de qualquer jornada. E o casamento é uma das mais sérias e mais comprometedoras da vida. É uma decisão importante e nos cabe uma reflexão profunda sobre a realidade da união que estamos nos engajando, dos nossos obstáculos internos e de obstáculos da relação, mas principalmente do nosso desejo.

O que desejamos de fato? Essa é a pergunta mais fundamental de todas. E não tenham dúvidas, a "arte" de nos enganarmos e de tapearmos o próprio desejo ou encobrir a realidade é uma das mais assutadoras da vida emocional humana. Portanto, não é uma das formas mais incomuns de serem reproduzidas nessas ocasiões. Nos iludimos com facilidade.

A paixão move montanhas, sacode a terra e escoa o oceano com tamanha prontidão que é razoável imaginar o que ela não é capaz de fazer com nossas modestas vidas. Por outro lado, isso pode ter um vigor incalculável se soubermos nos conduzir bem através dos caminhos da consciência e do amadurecimento.

Devemos nos lembrar que a construção de uma vida em comum é um processo longo e requer uma disposição sempre renovada, pois mudanças sempre ocorrem e de todos os tipos. O casamento é um exercício de atenção e de investimento continuados, pois ali despositamos grande parte de nossas energias e devemos fazer valer o nosso desejo (caso esse seja o nosso desejo) de estar naquela união proporcionando o bem-estar.

De outro lado, muitos acontecimentos cruzam o caminho de uma vida partilhada e as mudanças internas e de amadurecimento dos pares, bem como a rotina, podem alterar drasticamente os sonhos dos primeiros tempos de uma vida a dois. E falo aqui das uniões baseadas em sentimentos, em laços afetivos genuínos ou simplesmente no amor. Ainda assim, nada poderá garantir a vida dessa relação sem um efetivo trabalho e cuidado dos pares.

Uma relação quando acaba não tem uma data exata, pois é um processo. Mesmo que se diga que terminou em tal dia. Na realidade, ela já havia acabado bem antes, aquele dia só foi a formalização de tudo que aconteceu até ali. Toda relação passa por crises, infelizmente alguns casamentos até podem ser mapeados por isso. E apesar de tudo, chegam a sobreviver relativamente bem. Mas isso não é a regra. Crises constantes e profundas não são um bom sinal.

A questão é, quando uma crise é o anúncio do fim do relacionamento? Normalmente se sente um desgaste profundo e pouca ou nenhuma vontade de tentar qualquer coisa mais. Além disso, o sentimento já não é mais o mesmo ou está dirigido a um alvo fora da relação, sendo este real ou não. Cresce a falta de interesse pelo parceiro que pode ser a gota d'água para o desenlace. Nesse cenário se vê a indiferença, ausência de sexo e falta de companheirismo, e, não raro, em estágios mais avançados a falta de respeito e a quebra da confiança.

De todo jeito, não se pode falar de uma regra propriamente, mais em sinais, comprometimento ou não do casal, comportamentos e crises na relação. Não é incomum outros fatores pesarem, como as questões financeiras, materiais ou sociais. Inclusive, estes manterem o casamento pela força da necessidade, ao ponto do mesmo se tornar um cárcere, sobretudo, para um dos pares.

Não há dúvida que as tentativas para a salvar a relação podem fazer toda a diferença, principalmente, quando o amor foi apenas machucado, ferido na rotina, nas inconsistências de cada um ou na falta de cuidado, e ele ali pode ser reavivado, ressignificado e encontrar um novo caminho de sintonia, harmonia e crescimento.

Nessas horas, uma terapia de casal ajuda muito. Mas a terapia não deve ser vista como o último recurso ou um engajamento pelo desespero de um dos pares e total desinteresse do outro como uma tábua de salvação. Caso ela não seja possível, pode vir então na forma de uma terapia individual, justamente para aquele mais demandante, ajudando-o a lidar com a situação e o sofrimento.

Carlos França